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Faça melhor: violência sexual na ficção científica e na fantasia

Por Sarah Gailey*

Tradução de Rodrigo Assis Mesquita

Alien3-Ripley

Imagem: Tor.com

Protagonista Feminina derruba a porta do laboratório secreto. Ela corre pelo corredor, um revólver numa mão e uma faca na outra. Ela está pronta para lutar—mas ela se esquece de checar as esquinas e dois guardas uniformizados rapidamente avançam por trás e a seguram. Ignorando as tentativas de avisá-los sobre o plano secreto do Vilão de substituir todos os cérebros por robôs, os guardas rapidamente a algemam e começam a tateá-la, removendo todas as suas armas. Guarda Um olha lascivamente para ela enquanto revista, sem pressa, o interior do seu top—

(ou…)

Protagonista Feminina decidiu ignorar as reprimendas de seu pai sobre o comportamento que uma verdadeira Princesa deveria ter. Ela tem dezessete anos, caramba, e tem o direito de decidir o próprio destino. Ela está na floresta praticando golpes de espada contra uma árvore quando, do nada, dois jovens rufiões vindos da cidade aparecem na floresta. Eles cheiram a cidra amarga; demoram um momento para notá-la, mas quando notam, eles trocam um olhar que a deixa nervosa. Eles se aproximam, de modo casual, mas algo no seu caminhar é predatório. Ela percebe que o vestido folgado e confortável que usa para praticar esgrima faz com que pareça uma camponesa qualquer. Ela olha para cima e um dos jovens está sorrindo para ela. Ele agarra um pedaço do seu vestido e, antes que ela possa gritar, seu companheiro tapa a sua boca—

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Protagonista Feminina soca levemente o braço do Amigo Homem quando ambos tomam caminhos diferentes à noite. Ela grita que o verá na pista bem cedo de manhã para correrem juntos. Ela está feliz de ter encontrado um amigo no Quartel-General do Exército Espacial e porque o trote—constante no início—parecer ter acabado. Ela passa o seu braço e o chip no cúbito toca enquanto a porta registra a sua presença. A porta se abre, mas quando ela se vira para passar o braço de novo para fechar a porta, uma sombra aparece na porta. Ela se assusta—mas é apenas o Homem Escroto.

O que você quer? – ela pergunta. Mas em vez de responder, ele entra no quarto e passa o seu braço na porta, que se fecha atrás dele, e a empurra para o chão—

(ou)

Ele prende os braços dela facilmente com uma mão enorme e mexe nos laços da própria calça—

(ou)

Ela grita e o mago a estapeia na cara, forte. Ela fica atordoada com o gosto de sangue na boca—

(ou)

Ela se enrola em posição fetal nos lençóis ensanguentados enquanto o Príncipe Coroado das Fadas ronca ao lado e chora no travesseiro porque sabe que esse é o seu futuro.

Você já leu esses livros e você conhece esses personagens—nessas alturas, você com certeza se acostumou com a ideia de que a protagonista feminina será apalpada, “secada”, apertada, jogada ao chão. Se ela for estuprada, então há uma boa chance de que o fato tenha acontecido fora da narrativa e de que ela esteja mais durona por causa dele. Se for um quase-estupro, ela então matará a pessoa que estava tentando violentá-la, para que isso nunca mais aconteça. Ou talvez ela faça um trocadilho e use seus recém-adquiridos superpoderes para acabar com o agressor, maravilhando-se com sua nova força. Parece ter se tornado inevitável.

Eu quero ficar indignada com isso. Eu quero ficar furiosa com escritores de ficção científica e de fantasia que parecem ter maior facilidade em imaginar viagem em velocidade mais rápida do que a da luz do que em imaginar um mundo no qual a violência sexual não é uma ameaça constante. Eu quero gritar com autores para que deem às suas personagens femininas arcos mais dinâmicos e interessantes. Eu quero fazer um discurso e perguntar por que personagens femininas podem estar sujeitas a violência sexual, mas não a violência física; e então eu quero responder a minha própria pergunta com meus lábios no microfone: é porque bater numa mulher é tabu, mas estuprá-la não.

Eu amo o gênero, e eu amo essas personagens femininas, e quando coisas horríveis acontecem com seus corpos em nome do que seja lá o que o autor tenha em mente, eu quero ficar brava. Eu quero odiar o fato de que os raros casos de violência sexual contra personagens masculinos são tratados ou de maneira humorística ou como a transgressão definitiva—enquanto violência sexual contra personagens femininas é esperada. Mas é difícil ficar com raiva com o conhecimento de que para muitos escritores, violência sexual contra protagonistas femininas é um dado. É necessário, é preciso, e é a primeira coisa que vem à mente.

A verdade é que cenários descritos na maioria da ficção de gênero não são incorretos. Eles parecerão familiar para muitas mulheres. Mesmo mulheres que nunca tenham sido estupradas estarão familiarizadas com as apalpadas, a gritaria, as ameaças. As constantes e infinitas ameaças. Ameaças que supostamente são avisos amigáveis a respeito do que é seguro e do que não é. Ameaças que estão implícitas em tudo, desde códigos escolares de vestimenta a esmaltes de unha que detectam rohypnol [“boa noite cinderela”].

Violência sexual em ficção de gênero não é a única coisa que lembra as leitoras de que são vistas como vulneráveis, como alvos. Além disso, a arte levanta um espelho da realidade, certo? Por que a ficção de gênero não deveria apresentar o nosso mundo como ele é?

Mas então eu começo a ficar um pouco brava porque, caramba, não é isso o que fazemos por aqui. Nós falamos sobre experiências universais, como perda e amor e medo e lar e família. Mas violência sexual não precisa ser universal. Não precisa ser ubíqua. Não precisa ser constante. Nós escrevemos sobre mundos nos quais os dentes são desejos e as almas são livros e o tempo pode ser dobrado no meio e engolido como uma pílula. Nós escrevemos sobre espaçonaves do tamanho da cabeça de um alfinete e escrevemos sobre Deuses acorrentados e escrevemos sobre aranhas que são feitas de chips de computador e de sangue. Nós escrevemos sobre adultos habitando os corpos de crianças e dragões que se tornam lobos e escrevemos sobre galáxias inteiras onde tudo é mais brilhante e melhor e mais novo ou mais escuro e mais quebrado e irredimível.

Eu fico um pouco brava porque nós podemos imaginar horrores além da compreensão humana, mas ainda insistimos que o estupro é a pior coisa que pode acontecer com as nossas protagonistas femininas. Nós abrimos um abismo entre universos e permitimos que um tentáculo se projete através de um buraco no céu, mas não podemos suspender a nossa descrença o suficiente para apagar a misoginia casual de mundos que nós construímos. Nós conseguimos dar a um mago acesso a uma espaçonave com séculos de idade e movida por energia de vulcão, mas estacamos na noção de uma mulher que nunca tenha sido criada para se sentir pequena e com medo.

Eu fico brava porque eu não quero aceitar “isto não é realista” como resposta de um gênero que tipicamente usa “isto não é realista” como pretexto [para uma história].

Eu fico brava porque podemos fazer melhor. Alguns de nós fizemos melhos—olhem “The Fifth Season”, de N.K. Jemisin, ou “Shades of Milk and Honey”, de Mary Robinette Kowal, ou “Borderline”, de Mishell Baker. Olhe para “Magonia”, de Maria Dahvana Headley, ou “Every Heart a Doorway”, de Seanan McGuire’s, ou a trilogia “Abhorsen”, de Garth Nix. Olhe para eles e se pergunte por que a imaginação deles é forte o suficiente para deixar suas personagens femininas terem histórias que não incluam violência sexual. Pergunte-se porque essas histórias são tão raras.

Pergunte-se e faça melhor.

***

Mas espere aí, talvez eu esteja apenas exagerando. Vamos dar uma olhada em algumas evidências casuais:

– Eu li 61 livros nos últimos oito meses.

– 51 desses livros eram ficção de gênero.

– 31 desses apresentava uma protagonista feminina. O que posso dizer, eu gosto do que gosto.

– Desses 31, 20 incluíam uma cena envolvendo violência sexual. Então dois terços das protagonistas femininas de gênero apenas em minha pequena amostra. É bastante.


*A ficção de Sarah Gailey apareceu em Mothership Zeta e Fireside Fiction; sua não-ficção foi publicada pela Mashable e pela Fantasy Literature Magazine. Você pode ver fotos do seu filhotinho e receber atualização de seu trabalho clicando aqui. Ela tuíta sob @gaileyfrey. Espere por sua novela de estreia, River of Teeth, pela Tor.com em 2017.


Meus agradecimentos especiais à própria Sarah Gailey que gentilmente autorizou a tradução do seu artigo “Do Better: Sexual Violence in SFF” originalmente publicado no site da Tor aqui.

My special thanks to Sarah Gailey herself, who kindly let me translate her awesome article “Do Better: Sexual Violence in SFF” originally published on Tor’s website.

 

Artigo: Escrevendo sobre Estupro, por Jim C. Hines

Traduzido por Rodrigo Assis Mesquita. Artigo originalmente publicado na Apex Magazine.

Jim C. Hines é autor de sete romances de fantasia e de mais de quarenta contos. Trabalhou como coordenador e contato masculino para um abrigo de violência doméstica e foi conselheiro de vítimas de violência sexual e palestrante comunitário no seu centro de crise local. Você pode encontrá-lo online em www.jimchines.com onde continua escrevendo sobre violência sexual e assédio, bem como assuntos mais leves, de serras elétricas de LEGO a resenhas de livros a canções de Natal com temas de zumbi.


Então você decidiu adicionar uma cena de estupro na sua história. Afinal, está escrevendo uma história de terror, e o que é mais aterrorizante do que um estupro? É o jeito perfeito de mostrar o quão mau realmente é o seu vilão ou monstro, e todo mundo sempre diz que que você tem de começar uma história com ação e conflito, certo? O melhor de tudo: a sua história vai ajudar a educar todas as mulheres sobre os riscos de andar sozinha à noite! O editor é uma garota, então ela deve apreciar esse tipo de coisa.
Ou não.
Eu admito que este é um tópico sensível para mim. Trabalhei como conselheiro psicológico de estupro e passei vários anos conversando com vários grupos na minha universidade sobre questões de violência sexual. Também sou autor. Então ler livros e histórias nos quais o autor adicionou um estupro para deixar as coisas mais provocativas, ou para motivar a heroína, ou simplesmente porque ele ou ela não sabiam mais o que fazer com aquela personagem – isso deixar de ser novidade rápido.
Não é que escritores não possam ou não devam escrever sobre estupro. O problema é que na maioria das vezes isso é feito de maneira ruim. Em manuscritos não publicados que vi em workshops e em outros lugares, bem como em trabalhos publicados, parece, no geral, que as pessoas estão seguindo o Guia Oficial dos Escritores para Criar Cenas de Estupro Ofensivas e Clichês…

Capítulo Um: O Estuprador. No mundo da ficção, estupradores são caras malignos, nojentos e mal-apessoados que espreitam nos arbustos ou nas sombras de um estacionamento. Geralmente eles têm uma faca, que é um símbolo sexual (aprendi isso assistindo a um show policial na semana passada.) Quanto à vítima, ela não é realmente importante: a sua história é sobre o estuprador!
Na historialândia, quase todos os estupradores são estranhos, facilmente identificáveis pela aparência e por maneirismos. No mundo real, a maioria dos estupros é cometida por amigos e familiares, mas quem quer pensar nisso? É mais confortável presumir que estupradores são visivelmente pervertidos e fáceis de identificar em vez de indivíduos de aparência normal e geralmente charmosos.
Mas se você quer um desafio de verdade, tente deixar o seu estuprador compreensivo. Mostre como ele, no fundo, não queria machucar ninguém. Talvez ele tenha sido levado pelo momento. Talvez tenha perdido o controle. Talvez se sinta mal de verdade pelo que aconteceu. Mostre-o como um cara bonzinho que apenas cometeu um erro, mesmo que isso signifique jogar a culpa na vítima.

Capítulo Dois: A Vítima. Lembre-se, você está prestando um serviço de utilidade pública para as mulheres aqui, ensinando-as sobre os riscos do estupro. Claro, mulheres são inundadas com tais mensagens todos os dias de suas vidas, mandando-as vigiar suas bebidas e sempre andarem com um colega e a tomar cuidado com o que vestem e nunca atiçarem um cara e a carregarem spray de pimenta** e um apito de estupro e nunca ficarem a sós com um cara, mas estupro continua acontecendo! As mulheres obviamente não estão captando a mensagem.
Então certifique-se de que a garota faça tudo errado. Faça com ela corra sozinha à noite, ou convide um estranho que conheceu no bar para a sua casa. Muitos leitores não gostam quando coisas ruins acontecem com pessoas inocentes, então certifique-se de que ela é responsável por suas próprias escolhas ruins. Isso ajuda a enfatizar o quão vadia ela é, pois assim ela só está colhendo o que plantou.
Mais importante de tudo, tente não mostrá-la como uma pessoa. Quanto mais você humanizar a vítima, maiores as chances de o leitor se sentir mal com o que acontece.

Capítulo Três: O Resultado. Se você, como muitos outros escritores aspirantes que vieram antes, está usando o estupro como um atalho para mostrar o quão mau o seu vilão é, então quem se importa com o que acontece com a vítima? Mas talvez a vítima realmente seja um personagem na história. Neste caso, o estupro deve ser primariamente a sua única motivação no decorrer da história.
Certifique-se de que o estupro define a sua personagem e tudo o que ela faça. Para o propósito da sua história, ela não existia antes do estupro. Cada conversa, cada escolha, cada ação deve girar em torno do estupro. Esse é o incidente que a define.
Claro, você poderia pesquisar como a violência sexual realmente afeta as pessoas e a grande variedade de reações que as pessoas tem, mas quem tem tempo para isso? Você tem histórias para escrever!

Capítulo Quatro: A Reviravolta. Toda boa história precisa de uma reviravolta surpreendente. Por que não chocar o seu leitor ao virar a mesa em relação ao estuprador? Faça a sua “vítima” um monstro ainda pior do que o estuprador, um monstro que dará ao bastardo a morte lenta, dolorosa e abominável. Não se preocupe com a história ou com enredo ou com a construção do mundo: a questão é a Mensagem.
Estupro é Errado, então certifique-se de mostrar o quão Errado está o seu estuprador e entre em detalhes sobre como ele merece o que vai levar. Desenvolvimento de personagem? Quem precisa disso? A sua grande reviravolta na qual o estuprador torna-se a vítima é tudo o que precisa, e, mais uma vez, você está prestando um serviço de utilidade pública.
Talvez o seu estuprador acabe estuprado! Porque assim tudo se resume a justiça, tipo aquelas hilárias piadas de prisão que o seu amigão contou no outro dia.

Capítulo Cinco: Deixe [a cena] Sexy. Claro, estupro é um crime horrível, desumanizante, brutal e violento, mas não há razão para não fazê-lo titilante, certo? Mostre pele e enfatize a ereção do estuprador. Talvez a vítima também goste disso em algum nível.
De novo, a realidade não é sua amiga. Você está escrevendo ficção. No mundo real, estupro é um ato terrível e fisicamente violento. Quem quer ler sobre isso? O seu trabalho é tornar o estupro sexy e ousado e apelar para os leitores.

Ao seguir essas instruções, você – como muitos escritores antes – também pode criar histórias ofensivas, rasas, desinformadas e puramente ruins. Você pode colecionar cartas de rejeição de editores que vão se retorcer de antecipação na próxima vez que virem seu nome numa carta de submissão.
Mas e se você realmente se importar com a sua história? E se estiver escrevendo sobre estupro e violência sexual não apenas como um atalho emocional ou uma tentativa barata de motivação ou caracterização, mas porque é importante para a sua história? Como escrever sobre estupro e violência sexual e fazê-lo bem?
Não há resposta certa para essa questão, claro. Não estou aqui para sentar e ditar o Jeito Certo de escrever sobre estupro. Mas há algumas coisas sobre as quais pensei ao longo dos anos como um autor e um leitor.

Pesquisa: Lembro-me de ler um livro escrito por um autor razoavelmente popular, um que obviamente tinha feito uma quantidade tremenda de pesquisa sobre a ciência por trás da sua história de ficção científica… E então pareceu que tudo tinha mudado, como se o autor tivesse excedido a sua cota de pesquisa, de modo que quando chegou a hora de escrever sobre estupro, ele produziu uma cena infestada de clichês que enfiou cada mito concebível sobre estupro em uma cena de duas páginas que me fez desistir de toda a maldita série.
Foi mal escrita e preguiçosa. Eu não acredito em “Escreva o que você sabe”, mas sou um grande crente no “Saiba o que você escreve”. Se for escrever sobre violência sexual, leia a respeito antes. Leia sobre a dinâmica do estupro e do poder. Leia sobre mitos do estupro e leia sobre as estatísticas e as pesquisas que explodem tais mitos. Leia livros escritos por sobreviventes de violência sexual.

Caracterização: Um amigo meu resenhou um episódio de um novo programa de TV que lidava com escravidão sexual, um episódio no qual as vítimas não eram nada senão parte do set. Elas eram cenário, presentes somente para serem encarceradas e abusadas, absolutamente sem voz ou agência na história. Elas nem tinham nomes. A sua função era mostrar quão diabólico era o vilão e serem resgatadas pelo herói.
Personagens de papelão tornam as histórias chatas. Definir uma personagem simplesmente como “A Sobrevivente do Estupro” é escrita ruim. Cada personagem deve ter múltiplas motivações, desejos e medos. Eles devem tentar ter um papel ativo na sua própria história, mesmo que fracassem. Esse deveria ser o caso após o estupro também. Não há um jeito certo para os sobreviventes reagirem após o estupro. Como a sua personagem lidaria com esse trauma?
Não se esqueça do seu vilão também. Por que ele escolheu estuprar? Se a sua única resposta for “Porque ele é mau” então você está no caminho errado. Volte para a etapa da pesquisa para descobrir por que estupradores estupram no mundo real e descubra quais as motivações do seu vilão para cometer esse crime em particular.

Estupro ≠ Sexo: Outro livro que li este ano introduziu uma heroína forte, capaz, confiante… e então imediatamente fez com que um vampiro a dominasse e a estuprasse. Foi um ataque cruel e depravado e o vampiro a teria matado se não tivesse sido interrompido. A vítima acaba se tornando ela mesma uma vampira como resultado do estupro. Alguns capítulos mais tarde, esta personagem relembra a sua “iniciação”, referindo-se a ela como sexo selvagem.
Ora, não é incomum que sobreviventes de estupro evitem a palavra “estupro” quando pensam a respeito do que enfrentaram. É um jeito de minimizar o que alguém lhes fez, de tentar gerenciar e controlar o evento tornando-o menos do que foi. Se você está tentando escrever sobre uma personagem que está lutando para superar e, ao fazê-lo, está falando para si mesma que o aconteceu não foi estupro, é uma coisa.
Mas neste caso, pareceu que o autor é quem estava minimizando o fato. Não apenas a vítima começou a pensar a respeito do caso como sexo, mas ninguém mais no livro jamais pareceu reconhecer o fato como estupro. O autor apresentou um estupro violento e então o desconsiderou como se fosse nada pior do que um encontro ruim.
Não faça isso.

Pergunte-se “por quê?” Por que você quer incluir estupro na sua história? É apenas para mostrar o quão mau é o seu vilão? É porque está escrevendo horror e a violência sexual é um clichê [trope] tão abusado do gênero que você adicionou à sua história sem pensar? Ou essa cena realmente acrescenta algo à história que você está querendo contar?
Noventa por cento das cenas de estupro que li na ficção, publicadas e não publicadas, são previsíveis. Vejo para onde os autores estão indo a milhas de distância. Eu suspiro e continuo lendo, pensando que talvez desta vez haverá alguma coisa diferente ou interessante ou original lá. Mas, na maioria das vezes, fica óbvio como se pensou pouco nesta parte da história.
Tenho de me perguntar a mesma coisa: o que essa cena acrescenta à história? Como um antigo conselheiro de estupro, eu ocasionalmente me encontrava mais preocupado com a Mensagem, mas isso traz o risco de transformar a história em uma palestra. Uma coisa é compartilhar opiniões fortes em um ensaio ou em um post num blog, mas quando você pode escutar o autor pregando para você na ficção – mesmo que concorde com o autor – isso deixa a história fraca.

*

Se você, em algum momento, topar com um editor, pergunte-lhe quantas histórias mal escritas, cruéis, misóginas, raivosas ou simplesmente horríveis recebeu sobre estupro e violência sexual. (Especialmente se edita fantasia sombria [dark fantasy] ou horror.) A maioria dos editores que conheço já viu tanto dessas histórias que automaticamente rejeitam-nas assim que você descreve a sua heroína correndo em um caminho escuro no parque porque eles sabem exatamente aonde está indo.
História após história na qual estupro é um método rápido e impensado de motivar uma mulher a sair em busca de vingança (“Síndrome de Red Sonja”), ou então é um atalho preguiçoso para mostrar o nível de maldade de alguém é como mostrá-los chutando um filhotinho. Ou pior, é escrito de tal modo que o escritor ou escritora parece estar se deliciando no ato, glorificando e celebrando cada detalhe gráfico.
Se for escrever, escreva refletidamente. Escreva com conhecimento e compreensão.
Escreva bem.


*n.t.: no Brasil, a população civil não pode portar spray de pimenta
Agradecimento à Apex Magazine e, especialmente, a Jim C. Hines, que me autorizou a traduzir e compartilhar o artigo.
Thanks to Apex Magazine and, specially, to Jim C. Hines, who authorized me to translate and share the article.

Trazendo as mulheres de volta para as histórias

As mulheres compõem basicamente da população mundial, mas, na História, pouco aparecem. Em entrevista para o blog English Heritage, a historiadora Dra. Bettany Hughes explica que, na pré-História, de 40.000 A.C. até mais ou menos 5.000 A.C., vê-se que por volta de 90% das estatuetas produzidas representavam mulheres. O protagonismo masculino na História Ocidental é justificado pela necessidade de expansão que gera uma mudança de poder, pois a sociedade precisa de força muscular e se torna “militarizada”. Começam a aparecer deuses da guerra e épicos como Gilgamesh, a Ilíada e a Odisséia. O papel da mulher é diminuído nas sociedades em que os objetivos principais deixam de ser a sobrevivência física da comunidade e a qualidade de vida e passam a ser a expansão e o sucesso.

A Dra. Bettany Hughes afirma que um dos principais desafios dos historiadores é trazer as mulheres de volta para a História. Algumas mulheres ficaram famosas pela sua descrição hipersexualizada e por representarem um deturpado conto moral de sedução, de criaturas que atraíam os homens para a sua cama e para a morte. As mulheres não puderam ser retratadas como personagens, como protagonistas, e quando isso aconteceu, foram retratadas como estereótipos ou em uma versão fantasiosa.

“Cleópatra foi uma poeta e uma filósofa, ela era incrivelmente boa em matemática; ela não era muito bonita. Mas quando pensamos nela, nós pensamos: sedutora peituda tomando banho em leite. Muitas vezes, mesmo quando mulheres deixaram a sua marca e são lembradas pela história, nos é oferecida uma versão de fantasia de suas vidas”. – Dra. Bettany Hughes

 

***

Em 2014, a escritora Kameron Hurley ganhou um Prêmio Hugo na categoria Best Related Work com o ensaio “We have always fought”: challenging the “women, cattle and slaves” narrative, traduzido pela escritora Camila Fernandes em 2016 e publicado no seu blog. Kameron discorre sobre o apagamento das mulheres na história e sobre a reprodução dessa narrativa no nosso dia a dia, inclusive na ficção. As mulheres são retratadas como parte do cenário ou, no máximo, como elemento narrativo para o desenvolvimento dos personagens masculinos, são como gado ou como escravos. Como vemos a mulher tratada do mesmo modo a todo momento no cinema, na televisão e nos livros, tendemos a reproduzir essa visão quando chega a nossa vez de escrevermos. Um clichê pernicioso é o do estupro da mulher amada que serve de estopim para a vingança do personagem masculino, ou então para a disputa entre dois personagens masculinos sobre a responsabilidade por “deixar” acontecer tal coisa.

“Esquecemos sobre que é a história. Em nossas histórias, em nossa própria vida, apagamos as mulheres poderosas, decididas, inteligentes e aterrorizantes. As mulheres atacam e mutilam e matam e lideram e gerenciam e conquistam e fogem. Nós sabemos. Presenciamos isso todo dia. Vemos isso.

Mas esta é a nossa narrativa: dois homens brigando aos berros numa sala, e uma mulher fungando num cantinho”. – Kameron Hurley

Como a mulher é corriqueiramente retratada como parte integrante do cenário ou como mera motivação de outros personagens, as que escapam desse modelo são mostradas como algo fora da curva, fora do padrão. Ora, se uma mulher que escapa do estereótipo é uma pessoa excepcional, isso apenas reforça a natureza “comum” das demais mulheres, que devem ou estão integradas da maneira “esperada” na sociedade.

“Ao crescer, aprendi que as mulheres cumpriam certos tipos de papel e faziam certos tipos de coisas. Não é que eu não tivesse ótimos modelos de comportamento. As mulheres da minha família foram matriarcas e trabalhadoras. Mas as histórias que eu via na TV, no cinema e até nos livros diziam que elas eram anomalias. Elas eram lhamas peludinhas e não canibais. Muito raras.

Mas as histórias estavam todas erradas”. – Kameron Hurley

Kameron relata uma conversa que teve com um professor em Durban, na África do Sul, sobre a tese de mestrado que queria escrever. Ele lhe perguntou por que queria escrever sobre as mulheres combatentes da resistência. Ela respondeu que quase não conseguiu acreditar quando descobriu que as mulheres compunham mais de vinte por cento da ala militante do Congresso Nacional Africano, já que as mulheres nunca tinham sido parte das forças combatentes. O professor a interrompeu e abriu-lhe um novo mundo quando disse que as mulheres sempre lutaram, que Shaka Zulu, por exemplo, tinha uma força combatente composta só por mulheres, e que as mulheres sempre participaram de todas as guerras.

“Eu não tinha ideia do que responder. Tinha sido educada no sistema escolar norte-americano com uma dieta regular de teoria sobre os Grandes Homens da História. A História está cheia de Grandes Homens. Tive que fazer cursos separados de História das Mulheres só para aprender sobre o que elas estavam fazendo enquanto todos os homens se matavam. Entendi que muitas delas estavam governando países e descobrindo métodos mais eficazes de controle da natalidade que tiveram amplas consequências na criação de estados específicos, especialmente a Grécia e Roma”. – Kameron Hurley

***

Recentemente, duas turistas argentinas foram assassinadas no Equador. Maria José Coni e Marina Menegazzo, amigas, haviam decidido mochilar pela América do Sul. O caso ainda está sob investigação e, até onde sei pelos jornais, pelo menos uma delas foi morta por um homem que tentou abusar-lhe sexualmente. Muitos criticaram-nas por viajarem “sozinhas”, ou seja, sem a companhia de um homem. Maria e Marina só queriam conhecer a América Latina da Argentina ao Peru; eram amigas e estavam realizando um sonho, talvez o tivessem desde crianças. Porém, tiveram o “azar” de nascerem mulheres e estarem “sozinhas”; “pediram” para morrer, assim como muitas mulheres são estupradas todos os dias porque “pediram” por isso. Elas deixaram de ser tratadas como protagonistas da própria vida, mas apenas como duas peças que foram deixadas desprotegidas por aqueles que deveriam fazê-lo, os homens, provavelmente os homens da família ou amigos próximos.

Guadalupe Acosta, uma estudante de Comunicação paraguaia, escreveu um texto sobre o episódio: Ontem me mataram. Ela critica as perguntas estúpidas e impertinentes sobre o episódio, perguntas sobre as roupas que usavam, por que viajavam “sozinhas”, por que estavam na casa dos acusados pelos homicídios.

“[…]

A partir do momento que viram meu corpo inerte, ninguém se perguntou onde estava o filho da puta que acabou com meus sonhos, minhas esperanças, minha vida.

Não, preferiram começar a me fazer perguntas inúteis. A mim, podem imaginar? Uma morta, que não pode falar, que não pode se defender.

Que roupa estava usando?

Por que estava sozinha?

Como uma mulher quer viajar sem companhia?

Você se enfiou em um bairro perigoso. Esperava o quê?

Questionaram meus pais, por me darem asas, por deixarem que eu fosse independente, como qualquer ser humano. Disseram a eles que com certeza estávamos drogadas e procuramos, que alguma coisa fizemos, que deviam ter nos vigiado.

E só morta entendi que para o mundo eu não sou igual um homem. Que morrer foi minha culpa, que sempre vai ser. Enquanto que se o título dissesse“foram mortos dois jovens viajantes”as pessoas estariam oferecendo suas condolências e, com seu falso e hipócrita discurso de falsa moral, pediriam pena maior para os assassinos.

Mas, por ser mulher, é minimizado. Torna-se menos grave porque, claro, eu procurei. Fazendo o que queria, encontrei o que merecia por não ser submissa, por não querer ficar em casa, por investir meu próprio dinheiro em meus sonhos. Por isso e por muito mais, me condenaram”. – Guadalupe Acosta

Se vemos e lemos a mesma narrativa com frequência, é natural que tenhamos a tendência de reproduzi-la. Mas isso é preguiçoso e tem de mudar. As mulheres são pessoas como a outra metade do mundo, cada uma protagonizando a própria história, com desejos, sonhos, ambições, motivações, amores e tristezas. Elas não são “putas”, “vagabundas”, “vadias”, “esposas”, “mães” ou “filhas”, mas viajantes, estudantes, escritoras, astronautas, caminhoneiras, advogadas. São seres humanos, e não parte do cenário, tampouco objeto de disputa ou de motivação de personagens masculinos. Elas são e sempre foram protagonistas e assim devem ser retratadas, tanto na ficção como na história.


Vale a pena ler os seguintes textos:

Why were women written out of History? An interview with Bettany Hughes – English Heritage Blog

“Nós sempre lutamos”: desafiando a narrativa de “mulheres, gado e escravos”Kameron Hurley (Tradução de Camila Fernandes)

“Ontem me mataram”, a carta em memória das duas viajantes assassinadas no Equador – El País

#ViajoSozinha: Como a morte de duas turistas argentinas levou a debate sobre assédioGlobo.com


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