Crônica: Aos 27
Crônicas , Taverna / 2 setembro, 2016

Eu era pouco mais do que um bebê andando pela casa quando você veio. Não me lembro direito de quando você nasceu, pra ser sincero. Lembro-me vagamente de dois avôs, de alguns comentários que se perderam no tempo, e só. Você sofreu um acidente quando tinha cinco anos. Era um ano qualquer, inexpressivo. O ano não teve compaixão, ele insistiu em alternar dias ensolarados com chuvosos e enfiou uns dias mornos no meio. Um gerente falou que ia fazer umas coisas e fez, daí um pessoal resolveu vestir preto e gritar no meio da rua. Era só o que se falava, era o que estampava as capas das revistas nas bancas. Meus pais assinavam uma delas. E um pacote de gibis. Genial, o pacote de gibis. Desculpe, mudei de assunto. Acho que é o meu jeito. Cresci, você também, minha irmã caçula. Você teve muitos problemas, mas nunca se fez de vítima. Muita gente não te ouvia, como é comum com as crianças, ou entendia tudo errado. Outros não te queriam mais. Uns mais desavergonhados até pregavam um aborto tardio. Veio a adolescência e não foi fácil. Muitas mudanças, muitos hormônios, irritação, incompreensão. Não fomos sozinhos, pelo menos. Tivemos amigos….

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