Permanência do objeto (ou escalas sem escolhas)

18 janeiro, 2017

Imagem: IMDB

Se você entrar agora em qualquer site que vende passagens aéreas para o exterior, repare no seguinte: não importa o destino escolhido, sempre haverá uma escala em uma cidade do país sede da companhia aérea. Se voar pela holandesa KLM, vai dar uma parada em Amsterdã; pela Air France, em Paris (ou em Nice); pela British Airways, em Londres.
Pessoas se reuniram em algum lugar e decidiram que todo mundo seria forçado a parar nesses lugares. Podemos apenas escolher qual será a nossa escala e talvez nos reconfortar na ilusão da escolha.

Isso acontece o tempo todo e nem percebemos. Somos acostumados a encarar essas opções como as únicas opções que temos. É óbvio que não dá para questionar opções o tempo todo. Nosso tempo é limitado e certas escolhas são marginais: quer cobertura extra? Batata frita grande por mais um real? Gelo e limão?
Uma das formas mais fáceis de manipulação é apresentar opções binárias. Nada é mais efetivo do que o A contra B, nós contra eles, Corinthians versus Palmeiras. Não nos damos conta de que essas opções são apenas ilusórias, um pequeno grupo de alternativas que alguém selecionou e trouxe já mastigado. É um dos motivos que atravanca a reforma política, quanto ao poder, por exemplo, de selecionar os candidatos que poderão disputar as eleições.

Na novela “Profession”, Isaac Asimov conta a história de uma sociedade em que as profissões são escolhidas por uma análise dos candidatos no chamado Dia da Educação e o ensino é feito por fitas pré-gravadas, de acordo com a matéria e a profissão almejada, transmitidas diretamente para o cérebro dos estudantes. O protagonista, George Platen, não tem acesso às fitas mais atualizadas e é considerado inapto para Educação. Envergonhado e ridicularizado, é enviado para a Cara das Mentes Fracas. A reviravolta gira em torno de quem produz o conhecimento gravado nas fitas.

Isso é importante também ao contar uma história. Um mesmo acontecimento ou uma mesma história pode ter várias versões. Mostre um vídeo de uma senhora tropeçando na calçada para vários amigos e peça para que contem o que viram. A linguagem, a interpretação e os detalhes serão diferentes. Outros perceberão detalhes que você não notou ou até inventou o que não existe.

Entre o mundo e nós existe uma barreira de interpretação. Mesmo “fatos naturais”, como uma maçã caindo da árvore, depende de explicações produzidas pela mente humana. A maçã cai todo dia da árvore, sempre caiu (até onde sabemos), talvez sempre caia, independente de nossa percepção.
Na história em quadrinhos “Uma vida de sonho”, escrita e ilustrada pelo mestre Don Rosa, os Irmãos Metralha usam uma máquina criada pelo Professor Pardal para invadir os sonhos do Tio Patinhas e descobrir a senha da Caixa-Forte. No universo onírico, o mundo só existe a uma certa distância do Tio Patinhas—o resto é um vazio. Muita gente acha que a vida é assim. A não ser que você seja um bebê, é indesculpável.

Às vezes achamos que as escalas são tudo o que podemos escolher e que as escolhas são só aquelas que estão na nossa linha de visão. Os menus escondem escolhas tomadas por outros e as coisas continuam existindo independente do que vemos.

É bom pensar nisso quando escrever qualquer história, de ficção ou não. A violência sexual e racial, a discriminação, a miséria, o sofrimento, o mendigo sentado na rua, o menino no semáforo, a moça de olho roxo chorando na padaria, tudo continuará existindo depois que seus olhos seguirem adiante. É a

“permanência de objeto.”

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