Crônica: Aos 27

2 setembro, 2016

Eu era pouco mais do que um bebê andando pela casa quando você veio. Não me lembro direito de quando você nasceu, pra ser sincero. Lembro-me vagamente de dois avôs, de alguns comentários que se perderam no tempo, e só.

Você sofreu um acidente quando tinha cinco anos. Era um ano qualquer, inexpressivo. O ano não teve compaixão, ele insistiu em alternar dias ensolarados com chuvosos e enfiou uns dias mornos no meio. Um gerente falou que ia fazer umas coisas e fez, daí um pessoal resolveu vestir preto e gritar no meio da rua. Era só o que se falava, era o que estampava as capas das revistas nas bancas. Meus pais assinavam uma delas. E um pacote de gibis. Genial, o pacote de gibis. Desculpe, mudei de assunto. Acho que é o meu jeito.

Cresci, você também, minha irmã caçula. Você teve muitos problemas, mas nunca se fez de vítima. Muita gente não te ouvia, como é comum com as crianças, ou entendia tudo errado. Outros não te queriam mais. Uns mais desavergonhados até pregavam um aborto tardio.

Veio a adolescência e não foi fácil. Muitas mudanças, muitos hormônios, irritação, incompreensão. Não fomos sozinhos, pelo menos. Tivemos amigos. Tivemos falsos amigos. Tínhamos um ao outro.

Não sei se você se aceitava como era. Normal. Quiseram te mudar, assim, de fininho, como quem não quer nada. “É para o seu bem,” diziam. “Não vai doer nada.” Lembro de você, pequena pra sua idade, tremendo de olhos fechados. Você só precisava de um abraço e de um pouco de atenção. Desculpe. Era época de vestibular, de conquistar a minha vida, de sair com os amigos, de ir embora.

Você passou pelo mesmo—bom, não exatamente o mesmo, mas pela mesma fase. Você achou que era feliz, que estava com a vida ganha, e tinha tudo para se dar bem. Foram anos gloriosos, eu vi, eu prestei atenção de vez em quando, quando a vida adulta deixava um espacinho. Tive vergonha de dizer o quanto gostava de você. Não sei se sabia, espero que sim.

Depois começaram os sintomas. De início, ninguém percebeu. Os sinais estavam lá, aquele gérmen de algo podre, roto. Você não deu importância, também não dei. Acreditei na sua força; você também. Veio a febre, aquele estado que os médicos mal consideram fora do normal, os 37º C. Uma virose, diriam.

Só que a febre não foi embora. Todo mundo começou a dar palpite porque, né, todo mundo acha que entende de medicina, até os médicos. Ninguém descobriu o que era. Vieram os ataques, os espasmos, os cuidados para não se machucar gravemente. Vi tudo isso acontecendo, mas a vida nem sempre nos dá a chance que precisamos ou merecemos.

Quando vim te acudir, já era tarde. Aquela semente havia se transformado em metástase, um câncer tão violento que se espalhou pelos órgãos até dos outros. Ainda tentei te ajudar a caminhar, você, cambaleante, carcomida, pálida. Você pesava mil quilos; não consegui te ajudar. Desculpe.

Agora, enquanto te vejo deitada placidamente com as mãos cruzadas, como se sonhasse os sonhos mais bonitos, os sonhos de liberdade, de andar com os pés nus sobre a grama, de andar descalça em casa até ficar com a sola preta, penso em como tudo é efêmero. Não sei como vou viver sem você, mas, ei, assim é a vida, um caminho íngreme sem fim com uma e outra parada no meio. Provavelmente vou seguir em frente e lembrar de você numa quinta-feira de madrugada quando, pensando na hora que terei de acordar sem nem ter descansado um segundo, depois de calcular os minutos e bater uma ansiedade, virão as memórias da nossa infância, da nossa adolescência, das nossas derrotas e das nossas vitórias, tudo misturado e fora de ordem, e uma lágrima, que descerá ou não, vai marcar a sua ida. E vou sentir raiva, vou me levantar, tomar uma água, abrir a janela do apartamento e querer esmagar todas as pequenas luzes acesas àquela hora. Só que essa quinta-feira vai se repetir cada vez menos, espero, e não sentirei mais raiva, espero. Talvez eu transforme tudo isso em força, em ação, e preste mais atenção nas coisas que são importantes.

Nunca pensamos no que temos até perdermos. Clichê, eu sei. Mas é verdade. Ninguém fala por aí “nossa, hoje está ótimo, não aconteceu nada”, ou vê filmes em que o herói deu um pulo na padaria, comprou pão, trabalhou, jantou miojo, beijou a namorada e foi dormir.

Boa noite, irmã, e volte logo.

Nenhum Comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: