4 Armadilhas a serem evitadas ao criar personagens trans (versão para ficção científica e fantasia)*

15 setembro, 2016

Por Ashley Lauren Rogers*

Tradução de Rodrigo Assis Mesquita

ashley-headshot-05Há inúmeros exemplos de histórias de ficção científica e fantasia clássicas que lidam com gênero e o que acontece quando desviamos das expectativas daquele gênero. Inclua programas populares como Transparent, filmes como The Danish Girl e celebridades como Laverne Cox, Janet Mock e a politicamente polarizante Caitlin Jenner—não é de se admirar que um número crescente de ficção, incluindo YA, esteja apresentando personagens trans e não-binários. Então como podem os autores—especialmente se não são trans ou não-binários—criar tais personagens?

Comece evitando quatro armadilhas comuns.

1) Não confunda gênero, sexo e sexualidade.

Você já leu ou viu em uma mídia personagens que “trocam de gênero”? O que geralmente acontece é um monte de piadas sobre desequilíbrios hormonais, piadas sobre características sexuais secundárias (como pelo facial e o aparecimento de seios), ou piadas sobre a socialização de um gênero ou outro. O problema é: sexo (biologia), gênero (uma construção social) e sexualidade (quem você ama) não são a mesma coisa.

2) Não escreve personagens trans que são sempre oprimidos: uma pessoa trans pode ser tão feliz quanto qualquer outra!

Como uma pessoa trans, eu tive muitos amigos (amigos, outros escritores, aleatórios na internet) dizendo que querem escrever personagens trans, mas que muito do que leem no noticiário é triste. Sim, a pessoas trans está sendo negado o direito de usar banheiros que se alinhem à sua identidade de gênero, de receber os cuidados médicos necessários e de viver vidas livres da ameaça de violência terrível ao revelarem o seu status de pessoa trans. Mas pessoas trans não são necessariamente consumidas por essas injustiças. Nós certamente podemos ser influenciadas por elas, devotar bastante tempo para combate-las e gastar tempo lidando com nossas emoções com base no quanto elas nos afetam—mas isso não afeta a nossa inteira natureza de ser. O que nos leva a…

3) Pessoas trans e não-binárias são mais do que a sua identidade de gênero. Escreva personagens que reflitam isso.

Partindo do ponto acima: nenhuma pessoa, a despeito de sua identidade, é uma pessoa de uma questão só. Personagens principais devem ser bem desenvolvidos. Nós temos lugares onde trabalhamos, temos coisas que gostamos de fazer, coisas nas quais somos excepcionais e coisas nas quais somos péssimas. Nós podemos ter alergia a amendoim!

Um grande exemplo é Kai, a protagonista de Full Fathom Five, de Max Gladstone, que calha de ser uma mulher transgênero. A descrição da editora diz:

“Kai constrói deuses para mandar e então os entrega para outros manterem-nos. Suas criações não têm consciência nem vozes e desejos próprios, mas aceitam sacrifícios e protegem os seus adoradores contra outros deuses—veículos perfeitos para artesãos e artesãs operarem no Velho Mundo controlado por divindades. Quando Kai vê uma de suas criações morrendo e tenta salvá-la, ela é gravemente ferida—e então deixada de lado do negócio completamente, sua tentativa de resgate quase suicida oferecida como prova de sua instabilidade. Mas quando Kai se cansa de ouvir sua chefe, seus colegas e seu ex-namorado chamando-a de louca e começa a investigar a fundo as razões que estão levando suas criações a morrerem, ela desvela uma conspiração de silêncio e de medo que acabará com ela, se Kai não pará-la antes.”

Sua condição de transgênero influencia a personagem, mas a história não é “pessoa trans lidando com problemas trans porque TRAAAANS!” Ela tem um emprego, ela tem agência e ela tem propósito.

4) Pessoas trans não estão a fim de enganá-lo.

Esta última é enorme. Você vê o clichê do engodo em todo lugar: em Lost Girl (S03E01 “Caged Fae”), em Batgirl (número 37), em filmes como The Crying Game, Ace Ventura: Pet Detective e Sleepaway Camp, o cult clássico de 1983.

A ideia de que as pessoas trans “escondem” a sua condição de trans, o que pode se tornar uma chocante reviravolta, é clichê. Não é interessante e não é chocante. E no mundo real, pode causar danos reais quando uma pessoa trans é forçada a sair do armário. Tais histórias aprofundam a noção de que pessoas trans deveriam andar por aí anunciando o seu status de trans o tempo todo. Isso as expõe a uma potencial violência.

Essas são algumas das armadilhas principais, mas essa lista arranha só a superfície. Se você levar a sério a inclusão de personagens trans e não-binárias em sua ficção (e eu os encorajo a fazê-lo), considere cursar um workshop online de escrita de Writing the Other [Escrevendo o Outro]. Estarei ensinando “Writing Trans and NonBinary Narratives” [Escrevendo Narrativas Trans e Não-Binárias] no dia 11 de setembro [de 2016].


Ashley Lauren Rogers tem Bacharelado em Literatura Inglesa e Teatro do Fitchburg State College. Ela foi convidada para o curso intensivo de verão sobre roteiro de duas semanas no Kennedy Center em Washington DC. Seu show solo PASS/FAIL teve a première no Dixon Place Lounge e foi parte do Trans Theatre Festival no The Brick no Brooklyn. Sua obra foi exposta como parte do esgotado Gender: A Performance Project do Stage Left Studio.

Ashley é uma ganhadora do ACM Award for Comedy Video por escrever o piloto de Marisa and Rocco e é a criadora de Ashley Rogers Does Something Awesome e de Monthly Tea with Madeline Foxtrot—todos pela Dogtoon Media. Ashley escreveu artigos para Beyond Victoriana e Steampunk Magazine Online e é uma blogueira e vlogueira do NerdCaliber.com


*Artigo originalmente publicado na página da Science Fiction & Fantasy Writers of America sob o título 4 Pitfalls To Avoid When Crafting Trans Characters (SF&F Edition!)

Meus agradecimentos especiais à própria Ashley Lauren Rogers que gentilmente autorizou a tradução do seu artigo.

My special thanks to Ashley Lauren Rogers herself, who kindly let me translate her awesome article 4 Pitfalls To Avoid When Crafting Trans Characters (SF&F Edition!) originally published on SFWA’s website.

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