4 Armadilhas a serem evitadas ao criar personagens trans (versão para ficção científica e fantasia)*

Por Ashley Lauren Rogers*

Tradução de Rodrigo Assis Mesquita

ashley-headshot-05Há inúmeros exemplos de histórias de ficção científica e fantasia clássicas que lidam com gênero e o que acontece quando desviamos das expectativas daquele gênero. Inclua programas populares como Transparent, filmes como The Danish Girl e celebridades como Laverne Cox, Janet Mock e a politicamente polarizante Caitlin Jenner—não é de se admirar que um número crescente de ficção, incluindo YA, esteja apresentando personagens trans e não-binários. Então como podem os autores—especialmente se não são trans ou não-binários—criar tais personagens?

Comece evitando quatro armadilhas comuns.

1) Não confunda gênero, sexo e sexualidade.

Você já leu ou viu em uma mídia personagens que “trocam de gênero”? O que geralmente acontece é um monte de piadas sobre desequilíbrios hormonais, piadas sobre características sexuais secundárias (como pelo facial e o aparecimento de seios), ou piadas sobre a socialização de um gênero ou outro. O problema é: sexo (biologia), gênero (uma construção social) e sexualidade (quem você ama) não são a mesma coisa.

2) Não escreve personagens trans que são sempre oprimidos: uma pessoa trans pode ser tão feliz quanto qualquer outra!

Como uma pessoa trans, eu tive muitos amigos (amigos, outros escritores, aleatórios na internet) dizendo que querem escrever personagens trans, mas que muito do que leem no noticiário é triste. Sim, a pessoas trans está sendo negado o direito de usar banheiros que se alinhem à sua identidade de gênero, de receber os cuidados médicos necessários e de viver vidas livres da ameaça de violência terrível ao revelarem o seu status de pessoa trans. Mas pessoas trans não são necessariamente consumidas por essas injustiças. Nós certamente podemos ser influenciadas por elas, devotar bastante tempo para combate-las e gastar tempo lidando com nossas emoções com base no quanto elas nos afetam—mas isso não afeta a nossa inteira natureza de ser. O que nos leva a…

3) Pessoas trans e não-binárias são mais do que a sua identidade de gênero. Escreva personagens que reflitam isso.

Partindo do ponto acima: nenhuma pessoa, a despeito de sua identidade, é uma pessoa de uma questão só. Personagens principais devem ser bem desenvolvidos. Nós temos lugares onde trabalhamos, temos coisas que gostamos de fazer, coisas nas quais somos excepcionais e coisas nas quais somos péssimas. Nós podemos ter alergia a amendoim!

Um grande exemplo é Kai, a protagonista de Full Fathom Five, de Max Gladstone, que calha de ser uma mulher transgênero. A descrição da editora diz:

“Kai constrói deuses para mandar e então os entrega para outros manterem-nos. Suas criações não têm consciência nem vozes e desejos próprios, mas aceitam sacrifícios e protegem os seus adoradores contra outros deuses—veículos perfeitos para artesãos e artesãs operarem no Velho Mundo controlado por divindades. Quando Kai vê uma de suas criações morrendo e tenta salvá-la, ela é gravemente ferida—e então deixada de lado do negócio completamente, sua tentativa de resgate quase suicida oferecida como prova de sua instabilidade. Mas quando Kai se cansa de ouvir sua chefe, seus colegas e seu ex-namorado chamando-a de louca e começa a investigar a fundo as razões que estão levando suas criações a morrerem, ela desvela uma conspiração de silêncio e de medo que acabará com ela, se Kai não pará-la antes.”

Sua condição de transgênero influencia a personagem, mas a história não é “pessoa trans lidando com problemas trans porque TRAAAANS!” Ela tem um emprego, ela tem agência e ela tem propósito.

4) Pessoas trans não estão a fim de enganá-lo.

Esta última é enorme. Você vê o clichê do engodo em todo lugar: em Lost Girl (S03E01 “Caged Fae”), em Batgirl (número 37), em filmes como The Crying Game, Ace Ventura: Pet Detective e Sleepaway Camp, o cult clássico de 1983.

A ideia de que as pessoas trans “escondem” a sua condição de trans, o que pode se tornar uma chocante reviravolta, é clichê. Não é interessante e não é chocante. E no mundo real, pode causar danos reais quando uma pessoa trans é forçada a sair do armário. Tais histórias aprofundam a noção de que pessoas trans deveriam andar por aí anunciando o seu status de trans o tempo todo. Isso as expõe a uma potencial violência.

Essas são algumas das armadilhas principais, mas essa lista arranha só a superfície. Se você levar a sério a inclusão de personagens trans e não-binárias em sua ficção (e eu os encorajo a fazê-lo), considere cursar um workshop online de escrita de Writing the Other [Escrevendo o Outro]. Estarei ensinando “Writing Trans and NonBinary Narratives” [Escrevendo Narrativas Trans e Não-Binárias] no dia 11 de setembro [de 2016].


Ashley Lauren Rogers tem Bacharelado em Literatura Inglesa e Teatro do Fitchburg State College. Ela foi convidada para o curso intensivo de verão sobre roteiro de duas semanas no Kennedy Center em Washington DC. Seu show solo PASS/FAIL teve a première no Dixon Place Lounge e foi parte do Trans Theatre Festival no The Brick no Brooklyn. Sua obra foi exposta como parte do esgotado Gender: A Performance Project do Stage Left Studio.

Ashley é uma ganhadora do ACM Award for Comedy Video por escrever o piloto de Marisa and Rocco e é a criadora de Ashley Rogers Does Something Awesome e de Monthly Tea with Madeline Foxtrot—todos pela Dogtoon Media. Ashley escreveu artigos para Beyond Victoriana e Steampunk Magazine Online e é uma blogueira e vlogueira do NerdCaliber.com


*Artigo originalmente publicado na página da Science Fiction & Fantasy Writers of America sob o título 4 Pitfalls To Avoid When Crafting Trans Characters (SF&F Edition!)

Meus agradecimentos especiais à própria Ashley Lauren Rogers que gentilmente autorizou a tradução do seu artigo.

My special thanks to Ashley Lauren Rogers herself, who kindly let me translate her awesome article 4 Pitfalls To Avoid When Crafting Trans Characters (SF&F Edition!) originally published on SFWA’s website.

Faça melhor: violência sexual na ficção científica e na fantasia

Por Sarah Gailey*

Tradução de Rodrigo Assis Mesquita

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Imagem: Tor.com

Protagonista Feminina derruba a porta do laboratório secreto. Ela corre pelo corredor, um revólver numa mão e uma faca na outra. Ela está pronta para lutar—mas ela se esquece de checar as esquinas e dois guardas uniformizados rapidamente avançam por trás e a seguram. Ignorando as tentativas de avisá-los sobre o plano secreto do Vilão de substituir todos os cérebros por robôs, os guardas rapidamente a algemam e começam a tateá-la, removendo todas as suas armas. Guarda Um olha lascivamente para ela enquanto revista, sem pressa, o interior do seu top—

(ou…)

Protagonista Feminina decidiu ignorar as reprimendas de seu pai sobre o comportamento que uma verdadeira Princesa deveria ter. Ela tem dezessete anos, caramba, e tem o direito de decidir o próprio destino. Ela está na floresta praticando golpes de espada contra uma árvore quando, do nada, dois jovens rufiões vindos da cidade aparecem na floresta. Eles cheiram a cidra amarga; demoram um momento para notá-la, mas quando notam, eles trocam um olhar que a deixa nervosa. Eles se aproximam, de modo casual, mas algo no seu caminhar é predatório. Ela percebe que o vestido folgado e confortável que usa para praticar esgrima faz com que pareça uma camponesa qualquer. Ela olha para cima e um dos jovens está sorrindo para ela. Ele agarra um pedaço do seu vestido e, antes que ela possa gritar, seu companheiro tapa a sua boca—

(ou)

Protagonista Feminina soca levemente o braço do Amigo Homem quando ambos tomam caminhos diferentes à noite. Ela grita que o verá na pista bem cedo de manhã para correrem juntos. Ela está feliz de ter encontrado um amigo no Quartel-General do Exército Espacial e porque o trote—constante no início—parecer ter acabado. Ela passa o seu braço e o chip no cúbito toca enquanto a porta registra a sua presença. A porta se abre, mas quando ela se vira para passar o braço de novo para fechar a porta, uma sombra aparece na porta. Ela se assusta—mas é apenas o Homem Escroto.

O que você quer? – ela pergunta. Mas em vez de responder, ele entra no quarto e passa o seu braço na porta, que se fecha atrás dele, e a empurra para o chão—

(ou)

Ele prende os braços dela facilmente com uma mão enorme e mexe nos laços da própria calça—

(ou)

Ela grita e o mago a estapeia na cara, forte. Ela fica atordoada com o gosto de sangue na boca—

(ou)

Ela se enrola em posição fetal nos lençóis ensanguentados enquanto o Príncipe Coroado das Fadas ronca ao lado e chora no travesseiro porque sabe que esse é o seu futuro.

Você já leu esses livros e você conhece esses personagens—nessas alturas, você com certeza se acostumou com a ideia de que a protagonista feminina será apalpada, “secada”, apertada, jogada ao chão. Se ela for estuprada, então há uma boa chance de que o fato tenha acontecido fora da narrativa e de que ela esteja mais durona por causa dele. Se for um quase-estupro, ela então matará a pessoa que estava tentando violentá-la, para que isso nunca mais aconteça. Ou talvez ela faça um trocadilho e use seus recém-adquiridos superpoderes para acabar com o agressor, maravilhando-se com sua nova força. Parece ter se tornado inevitável.

Eu quero ficar indignada com isso. Eu quero ficar furiosa com escritores de ficção científica e de fantasia que parecem ter maior facilidade em imaginar viagem em velocidade mais rápida do que a da luz do que em imaginar um mundo no qual a violência sexual não é uma ameaça constante. Eu quero gritar com autores para que deem às suas personagens femininas arcos mais dinâmicos e interessantes. Eu quero fazer um discurso e perguntar por que personagens femininas podem estar sujeitas a violência sexual, mas não a violência física; e então eu quero responder a minha própria pergunta com meus lábios no microfone: é porque bater numa mulher é tabu, mas estuprá-la não.

Eu amo o gênero, e eu amo essas personagens femininas, e quando coisas horríveis acontecem com seus corpos em nome do que seja lá o que o autor tenha em mente, eu quero ficar brava. Eu quero odiar o fato de que os raros casos de violência sexual contra personagens masculinos são tratados ou de maneira humorística ou como a transgressão definitiva—enquanto violência sexual contra personagens femininas é esperada. Mas é difícil ficar com raiva com o conhecimento de que para muitos escritores, violência sexual contra protagonistas femininas é um dado. É necessário, é preciso, e é a primeira coisa que vem à mente.

A verdade é que cenários descritos na maioria da ficção de gênero não são incorretos. Eles parecerão familiar para muitas mulheres. Mesmo mulheres que nunca tenham sido estupradas estarão familiarizadas com as apalpadas, a gritaria, as ameaças. As constantes e infinitas ameaças. Ameaças que supostamente são avisos amigáveis a respeito do que é seguro e do que não é. Ameaças que estão implícitas em tudo, desde códigos escolares de vestimenta a esmaltes de unha que detectam rohypnol [“boa noite cinderela”].

Violência sexual em ficção de gênero não é a única coisa que lembra as leitoras de que são vistas como vulneráveis, como alvos. Além disso, a arte levanta um espelho da realidade, certo? Por que a ficção de gênero não deveria apresentar o nosso mundo como ele é?

Mas então eu começo a ficar um pouco brava porque, caramba, não é isso o que fazemos por aqui. Nós falamos sobre experiências universais, como perda e amor e medo e lar e família. Mas violência sexual não precisa ser universal. Não precisa ser ubíqua. Não precisa ser constante. Nós escrevemos sobre mundos nos quais os dentes são desejos e as almas são livros e o tempo pode ser dobrado no meio e engolido como uma pílula. Nós escrevemos sobre espaçonaves do tamanho da cabeça de um alfinete e escrevemos sobre Deuses acorrentados e escrevemos sobre aranhas que são feitas de chips de computador e de sangue. Nós escrevemos sobre adultos habitando os corpos de crianças e dragões que se tornam lobos e escrevemos sobre galáxias inteiras onde tudo é mais brilhante e melhor e mais novo ou mais escuro e mais quebrado e irredimível.

Eu fico um pouco brava porque nós podemos imaginar horrores além da compreensão humana, mas ainda insistimos que o estupro é a pior coisa que pode acontecer com as nossas protagonistas femininas. Nós abrimos um abismo entre universos e permitimos que um tentáculo se projete através de um buraco no céu, mas não podemos suspender a nossa descrença o suficiente para apagar a misoginia casual de mundos que nós construímos. Nós conseguimos dar a um mago acesso a uma espaçonave com séculos de idade e movida por energia de vulcão, mas estacamos na noção de uma mulher que nunca tenha sido criada para se sentir pequena e com medo.

Eu fico brava porque eu não quero aceitar “isto não é realista” como resposta de um gênero que tipicamente usa “isto não é realista” como pretexto [para uma história].

Eu fico brava porque podemos fazer melhor. Alguns de nós fizemos melhos—olhem “The Fifth Season”, de N.K. Jemisin, ou “Shades of Milk and Honey”, de Mary Robinette Kowal, ou “Borderline”, de Mishell Baker. Olhe para “Magonia”, de Maria Dahvana Headley, ou “Every Heart a Doorway”, de Seanan McGuire’s, ou a trilogia “Abhorsen”, de Garth Nix. Olhe para eles e se pergunte por que a imaginação deles é forte o suficiente para deixar suas personagens femininas terem histórias que não incluam violência sexual. Pergunte-se porque essas histórias são tão raras.

Pergunte-se e faça melhor.

***

Mas espere aí, talvez eu esteja apenas exagerando. Vamos dar uma olhada em algumas evidências casuais:

– Eu li 61 livros nos últimos oito meses.

– 51 desses livros eram ficção de gênero.

– 31 desses apresentava uma protagonista feminina. O que posso dizer, eu gosto do que gosto.

– Desses 31, 20 incluíam uma cena envolvendo violência sexual. Então dois terços das protagonistas femininas de gênero apenas em minha pequena amostra. É bastante.


*A ficção de Sarah Gailey apareceu em Mothership Zeta e Fireside Fiction; sua não-ficção foi publicada pela Mashable e pela Fantasy Literature Magazine. Você pode ver fotos do seu filhotinho e receber atualização de seu trabalho clicando aqui. Ela tuíta sob @gaileyfrey. Espere por sua novela de estreia, River of Teeth, pela Tor.com em 2017.


Meus agradecimentos especiais à própria Sarah Gailey que gentilmente autorizou a tradução do seu artigo “Do Better: Sexual Violence in SFF” originalmente publicado no site da Tor aqui.

My special thanks to Sarah Gailey herself, who kindly let me translate her awesome article “Do Better: Sexual Violence in SFF” originally published on Tor’s website.