Artigo: Escrevendo sobre Estupro, por Jim C. Hines

5 junho, 2016

Traduzido por Rodrigo Assis Mesquita. Artigo originalmente publicado na Apex Magazine.

Jim C. Hines é autor de sete romances de fantasia e de mais de quarenta contos. Trabalhou como coordenador e contato masculino para um abrigo de violência doméstica e foi conselheiro de vítimas de violência sexual e palestrante comunitário no seu centro de crise local. Você pode encontrá-lo online em www.jimchines.com onde continua escrevendo sobre violência sexual e assédio, bem como assuntos mais leves, de serras elétricas de LEGO a resenhas de livros a canções de Natal com temas de zumbi.


Então você decidiu adicionar uma cena de estupro na sua história. Afinal, está escrevendo uma história de terror, e o que é mais aterrorizante do que um estupro? É o jeito perfeito de mostrar o quão mau realmente é o seu vilão ou monstro, e todo mundo sempre diz que que você tem de começar uma história com ação e conflito, certo? O melhor de tudo: a sua história vai ajudar a educar todas as mulheres sobre os riscos de andar sozinha à noite! O editor é uma garota, então ela deve apreciar esse tipo de coisa.
Ou não.
Eu admito que este é um tópico sensível para mim. Trabalhei como conselheiro psicológico de estupro e passei vários anos conversando com vários grupos na minha universidade sobre questões de violência sexual. Também sou autor. Então ler livros e histórias nos quais o autor adicionou um estupro para deixar as coisas mais provocativas, ou para motivar a heroína, ou simplesmente porque ele ou ela não sabiam mais o que fazer com aquela personagem – isso deixar de ser novidade rápido.
Não é que escritores não possam ou não devam escrever sobre estupro. O problema é que na maioria das vezes isso é feito de maneira ruim. Em manuscritos não publicados que vi em workshops e em outros lugares, bem como em trabalhos publicados, parece, no geral, que as pessoas estão seguindo o Guia Oficial dos Escritores para Criar Cenas de Estupro Ofensivas e Clichês…

Capítulo Um: O Estuprador. No mundo da ficção, estupradores são caras malignos, nojentos e mal-apessoados que espreitam nos arbustos ou nas sombras de um estacionamento. Geralmente eles têm uma faca, que é um símbolo sexual (aprendi isso assistindo a um show policial na semana passada.) Quanto à vítima, ela não é realmente importante: a sua história é sobre o estuprador!
Na historialândia, quase todos os estupradores são estranhos, facilmente identificáveis pela aparência e por maneirismos. No mundo real, a maioria dos estupros é cometida por amigos e familiares, mas quem quer pensar nisso? É mais confortável presumir que estupradores são visivelmente pervertidos e fáceis de identificar em vez de indivíduos de aparência normal e geralmente charmosos.
Mas se você quer um desafio de verdade, tente deixar o seu estuprador compreensivo. Mostre como ele, no fundo, não queria machucar ninguém. Talvez ele tenha sido levado pelo momento. Talvez tenha perdido o controle. Talvez se sinta mal de verdade pelo que aconteceu. Mostre-o como um cara bonzinho que apenas cometeu um erro, mesmo que isso signifique jogar a culpa na vítima.

Capítulo Dois: A Vítima. Lembre-se, você está prestando um serviço de utilidade pública para as mulheres aqui, ensinando-as sobre os riscos do estupro. Claro, mulheres são inundadas com tais mensagens todos os dias de suas vidas, mandando-as vigiar suas bebidas e sempre andarem com um colega e a tomar cuidado com o que vestem e nunca atiçarem um cara e a carregarem spray de pimenta** e um apito de estupro e nunca ficarem a sós com um cara, mas estupro continua acontecendo! As mulheres obviamente não estão captando a mensagem.
Então certifique-se de que a garota faça tudo errado. Faça com ela corra sozinha à noite, ou convide um estranho que conheceu no bar para a sua casa. Muitos leitores não gostam quando coisas ruins acontecem com pessoas inocentes, então certifique-se de que ela é responsável por suas próprias escolhas ruins. Isso ajuda a enfatizar o quão vadia ela é, pois assim ela só está colhendo o que plantou.
Mais importante de tudo, tente não mostrá-la como uma pessoa. Quanto mais você humanizar a vítima, maiores as chances de o leitor se sentir mal com o que acontece.

Capítulo Três: O Resultado. Se você, como muitos outros escritores aspirantes que vieram antes, está usando o estupro como um atalho para mostrar o quão mau o seu vilão é, então quem se importa com o que acontece com a vítima? Mas talvez a vítima realmente seja um personagem na história. Neste caso, o estupro deve ser primariamente a sua única motivação no decorrer da história.
Certifique-se de que o estupro define a sua personagem e tudo o que ela faça. Para o propósito da sua história, ela não existia antes do estupro. Cada conversa, cada escolha, cada ação deve girar em torno do estupro. Esse é o incidente que a define.
Claro, você poderia pesquisar como a violência sexual realmente afeta as pessoas e a grande variedade de reações que as pessoas tem, mas quem tem tempo para isso? Você tem histórias para escrever!

Capítulo Quatro: A Reviravolta. Toda boa história precisa de uma reviravolta surpreendente. Por que não chocar o seu leitor ao virar a mesa em relação ao estuprador? Faça a sua “vítima” um monstro ainda pior do que o estuprador, um monstro que dará ao bastardo a morte lenta, dolorosa e abominável. Não se preocupe com a história ou com enredo ou com a construção do mundo: a questão é a Mensagem.
Estupro é Errado, então certifique-se de mostrar o quão Errado está o seu estuprador e entre em detalhes sobre como ele merece o que vai levar. Desenvolvimento de personagem? Quem precisa disso? A sua grande reviravolta na qual o estuprador torna-se a vítima é tudo o que precisa, e, mais uma vez, você está prestando um serviço de utilidade pública.
Talvez o seu estuprador acabe estuprado! Porque assim tudo se resume a justiça, tipo aquelas hilárias piadas de prisão que o seu amigão contou no outro dia.

Capítulo Cinco: Deixe [a cena] Sexy. Claro, estupro é um crime horrível, desumanizante, brutal e violento, mas não há razão para não fazê-lo titilante, certo? Mostre pele e enfatize a ereção do estuprador. Talvez a vítima também goste disso em algum nível.
De novo, a realidade não é sua amiga. Você está escrevendo ficção. No mundo real, estupro é um ato terrível e fisicamente violento. Quem quer ler sobre isso? O seu trabalho é tornar o estupro sexy e ousado e apelar para os leitores.

Ao seguir essas instruções, você – como muitos escritores antes – também pode criar histórias ofensivas, rasas, desinformadas e puramente ruins. Você pode colecionar cartas de rejeição de editores que vão se retorcer de antecipação na próxima vez que virem seu nome numa carta de submissão.
Mas e se você realmente se importar com a sua história? E se estiver escrevendo sobre estupro e violência sexual não apenas como um atalho emocional ou uma tentativa barata de motivação ou caracterização, mas porque é importante para a sua história? Como escrever sobre estupro e violência sexual e fazê-lo bem?
Não há resposta certa para essa questão, claro. Não estou aqui para sentar e ditar o Jeito Certo de escrever sobre estupro. Mas há algumas coisas sobre as quais pensei ao longo dos anos como um autor e um leitor.

Pesquisa: Lembro-me de ler um livro escrito por um autor razoavelmente popular, um que obviamente tinha feito uma quantidade tremenda de pesquisa sobre a ciência por trás da sua história de ficção científica… E então pareceu que tudo tinha mudado, como se o autor tivesse excedido a sua cota de pesquisa, de modo que quando chegou a hora de escrever sobre estupro, ele produziu uma cena infestada de clichês que enfiou cada mito concebível sobre estupro em uma cena de duas páginas que me fez desistir de toda a maldita série.
Foi mal escrita e preguiçosa. Eu não acredito em “Escreva o que você sabe”, mas sou um grande crente no “Saiba o que você escreve”. Se for escrever sobre violência sexual, leia a respeito antes. Leia sobre a dinâmica do estupro e do poder. Leia sobre mitos do estupro e leia sobre as estatísticas e as pesquisas que explodem tais mitos. Leia livros escritos por sobreviventes de violência sexual.

Caracterização: Um amigo meu resenhou um episódio de um novo programa de TV que lidava com escravidão sexual, um episódio no qual as vítimas não eram nada senão parte do set. Elas eram cenário, presentes somente para serem encarceradas e abusadas, absolutamente sem voz ou agência na história. Elas nem tinham nomes. A sua função era mostrar quão diabólico era o vilão e serem resgatadas pelo herói.
Personagens de papelão tornam as histórias chatas. Definir uma personagem simplesmente como “A Sobrevivente do Estupro” é escrita ruim. Cada personagem deve ter múltiplas motivações, desejos e medos. Eles devem tentar ter um papel ativo na sua própria história, mesmo que fracassem. Esse deveria ser o caso após o estupro também. Não há um jeito certo para os sobreviventes reagirem após o estupro. Como a sua personagem lidaria com esse trauma?
Não se esqueça do seu vilão também. Por que ele escolheu estuprar? Se a sua única resposta for “Porque ele é mau” então você está no caminho errado. Volte para a etapa da pesquisa para descobrir por que estupradores estupram no mundo real e descubra quais as motivações do seu vilão para cometer esse crime em particular.

Estupro ≠ Sexo: Outro livro que li este ano introduziu uma heroína forte, capaz, confiante… e então imediatamente fez com que um vampiro a dominasse e a estuprasse. Foi um ataque cruel e depravado e o vampiro a teria matado se não tivesse sido interrompido. A vítima acaba se tornando ela mesma uma vampira como resultado do estupro. Alguns capítulos mais tarde, esta personagem relembra a sua “iniciação”, referindo-se a ela como sexo selvagem.
Ora, não é incomum que sobreviventes de estupro evitem a palavra “estupro” quando pensam a respeito do que enfrentaram. É um jeito de minimizar o que alguém lhes fez, de tentar gerenciar e controlar o evento tornando-o menos do que foi. Se você está tentando escrever sobre uma personagem que está lutando para superar e, ao fazê-lo, está falando para si mesma que o aconteceu não foi estupro, é uma coisa.
Mas neste caso, pareceu que o autor é quem estava minimizando o fato. Não apenas a vítima começou a pensar a respeito do caso como sexo, mas ninguém mais no livro jamais pareceu reconhecer o fato como estupro. O autor apresentou um estupro violento e então o desconsiderou como se fosse nada pior do que um encontro ruim.
Não faça isso.

Pergunte-se “por quê?” Por que você quer incluir estupro na sua história? É apenas para mostrar o quão mau é o seu vilão? É porque está escrevendo horror e a violência sexual é um clichê [trope] tão abusado do gênero que você adicionou à sua história sem pensar? Ou essa cena realmente acrescenta algo à história que você está querendo contar?
Noventa por cento das cenas de estupro que li na ficção, publicadas e não publicadas, são previsíveis. Vejo para onde os autores estão indo a milhas de distância. Eu suspiro e continuo lendo, pensando que talvez desta vez haverá alguma coisa diferente ou interessante ou original lá. Mas, na maioria das vezes, fica óbvio como se pensou pouco nesta parte da história.
Tenho de me perguntar a mesma coisa: o que essa cena acrescenta à história? Como um antigo conselheiro de estupro, eu ocasionalmente me encontrava mais preocupado com a Mensagem, mas isso traz o risco de transformar a história em uma palestra. Uma coisa é compartilhar opiniões fortes em um ensaio ou em um post num blog, mas quando você pode escutar o autor pregando para você na ficção – mesmo que concorde com o autor – isso deixa a história fraca.

*

Se você, em algum momento, topar com um editor, pergunte-lhe quantas histórias mal escritas, cruéis, misóginas, raivosas ou simplesmente horríveis recebeu sobre estupro e violência sexual. (Especialmente se edita fantasia sombria [dark fantasy] ou horror.) A maioria dos editores que conheço já viu tanto dessas histórias que automaticamente rejeitam-nas assim que você descreve a sua heroína correndo em um caminho escuro no parque porque eles sabem exatamente aonde está indo.
História após história na qual estupro é um método rápido e impensado de motivar uma mulher a sair em busca de vingança (“Síndrome de Red Sonja”), ou então é um atalho preguiçoso para mostrar o nível de maldade de alguém é como mostrá-los chutando um filhotinho. Ou pior, é escrito de tal modo que o escritor ou escritora parece estar se deliciando no ato, glorificando e celebrando cada detalhe gráfico.
Se for escrever, escreva refletidamente. Escreva com conhecimento e compreensão.
Escreva bem.


*n.t.: no Brasil, a população civil não pode portar spray de pimenta
Agradecimento à Apex Magazine e, especialmente, a Jim C. Hines, que me autorizou a traduzir e compartilhar o artigo.
Thanks to Apex Magazine and, specially, to Jim C. Hines, who authorized me to translate and share the article.

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