A fantasia medieval como refúgio da misoginia

30 maio, 2016

A fantasia medieval é pródiga em textos com alto teor de misoginia, machismo, homofobia e outras formas de agressão a grupos vulneráveis ou a minorias. Ironicamente, a desculpa preferida de autores de textos desse teor é a de que “a Idade Média era assim” ou então de que busca a “realidade”.

Ora, “fantasia medieval” é, por definição, ficção, ou seja, uma história que não corresponde e nem tem pretensão de corresponder à realidade. “Fantasia” é um termo em vias de abandono em prol da expressão “ficção especulativa”, um gênero que comporta toda sorte de elementos fantásticos (i.e., irreais) para contar uma história. O adjetivo “medieval” limita o gênero a narrativas inspiradas na nossa Idade Média. Note-se que “inspirada” inclui histórias que se passam numa versão romantizada de uma época da História e até mesmo mundos totalmente saídos da cabeça do autor.

Por exemplo, a Terra-Média de Tolkien baseia-se na Midgard da cultura nórdica e faz uma salada de elementos da cosmogonia viking, armamentos de alguns povos e períodos medievais e uma visão própria de elfos e anões. É notória a falta de mulheres em O Senhor dos Anéis e O Hobbit. Em parte, é culpa do tempo em que foram escritos e da pessoa que escreveu: um acadêmico britânico obcecado com a criação de um mundo que nasceu no fim do século XIX na Inglaterra e desenvolveu suas duas obras no período entre Guerras. Parte é “culpa” das escolhas do próprio autor.

Outro exemplo de “fantasia medieval” é O Nome do Vento, que se passa em um mundo de faz-de-conta em que o conhecimento científico é muito próximo do nosso mundo contemporâneo, mas com um sistema de magia do tipo RPG. Não há violência sexual no livro, o que é um grande mérito para o gênero e demonstra a desnecessidade desse expediente para o sucesso.

Parece, na verdade, que a “fantasia medieval” virou um refúgio para a misoginia, um local “seguro” para agredir, violentar e humilhar mulheres e outros grupos vulneráveis impunemente sob o conveniente álibi de que “na Idade Média era assim”. Não é raro vermos histórias em que uma mulher é estuprada, inclusive com detalhes e de maneira erotizada, apenas para que o salvador-protagonista exerça a sua vingança ou se mostre um homem sensível ou então para que o enredo continue.

Empregar a misoginia e outras formas de violência é uma opção do criador da história, principalmente no reino da fantasia. Talvez a única exceção, com bom senso, seja a ficção histórica, e, mesmo assim, desde que a escrita trate adequadamente o fato.

Ademais, pautando-se por essas histórias, fica a impressão de que a Idade Média foi um período infernal em que uma mulher não podia passar cinco minutos sem sofrer uma ameaça ou uma agressão sexual. Será mesmo?

A crueldade em geral não era tão comum como se pensa. Artigo publicado no Guia do Estudante Abril explica:

(…) é comum pensarmos que, na Idade Média, os espetáculos de execução pública e as penas de mortes dadas a qualquer um eram corriqueiras. Outra ideia falsa: a grande maioria das pessoas vivia incólume por toda a vida, sem maiores preocupações, e as penas de morte eram dadas somente em último caso. As maiores violências da história aconteceram muito mais nos últimos séculos, como genocídios e assassinatos em massa em épocas de guerra.

A virgindade da mulher era prezada e protegida pela legislação como o mais valioso bem da honra feminina. A partir de 1230, o estupro de uma virgem era considerado um crime hediondo punível com a morte ou com a cegueira (An oppressive silence: the evolution of the raped woman in medieval France and England, p. 6)

Christine de Pisan escreveu no século XV:

 Eu, portanto, me sinto perturbada e entristecida quando homens discutem que muitas mulheres querem ser estupradas e que não as incomoda em absoluto serem estupradas por homens contra os quais elas verbalmente protestam (…) Tenha certeza, caro amigo, que moças castas que vivem honestamente não sentem nenhum prazer em seres estupradas”. An oppressive silence: the evolution of the raped woman in medieval France and England, p. 9)

A legislação, embora em certo momento tenha sofrido uma mitigação, evoluiu para condenar o estupro. De acordo com Zoë Eckman, a partir de Gratian, o estupro ficou caracterizado pela concorrência de quatro elementos: o uso de violência, abdução, coito e a ausência de livre consentimento da parceira. O não consentimento não precisava ser extraordinário: bastava gritar ou chorar (An oppressive silence: the evolution of the raped woman in medieval France and England, p. 10).

Fora que se objetivo for aderência à realidade, a história não terá heróis, pois os próprios cavaleiros de armadura roubavam, matavam, queimavam camponeses e vilarejos. (6 Ridiculous myths about the Middle Ages everyone believes)

Enfim, existe uma grande lacuna: não é possível saber como e com qual frequência aconteciam estupros na época já que as fontes de estudo são a legislação da Igreja, a civil (ou da “common law”), documentos de tribunais e escritos literários. Em outras palavras, a estrutura burocrática em vigor e a documentação legal e literária era produzida por homens e por eles filtrada (veja, por exemplo, o artigo Was Sansa’s Abuse Normal in the Middle Ages?). O próprio crime de estupro protegia primariamente o homem em relação ao qual a mulher estava ligada; a voz da mulher era desprezada ou apagada. Não se pode confundir o conteúdo de um texto com a verdade dos fatos.

Ora, se faltam fontes, a noção de que estupros e outras formas de violência eram cotidianos é fruto de mera ilação dos escritores de ficção, um senso comum alimentado por uma visão misógina de mundo.

A cultura do estupro existe até hoje, como infelizmente vemos nos jornais, nos tribunais (como se vê aqui e aqui) e em estatísticas oficiais. Nem por isso as histórias ficcionais em geral, incluindo as que se passam num cenário contemporâneo, transbordam violência sexual; tampouco é aceitável um tratamento banalizado do tema.

O escritor que opta por usar a violência sexual simplesmente como artifício de enredo não está oferecendo uma representação fidedigna da realidade, até porque não se sabe direito como as pessoas viviam na Idade Média, principalmente as pessoas comuns.

Além disso, se o mundo é ficcional, não faz sentido retratar ou defender a “normalidade” de qualquer forma de violência contra a mulher, ainda mais fora da ficção histórica, pois elfos, duendes, anões, armaduras de ouro ou de diamante, espadas gigantescas, dragões, portais interdimensionais, alquimia etc não existem e não existiram.

Um texto produzido hoje não é um documento histórico, ou seja, não é uma relíquia, um livro ou um papiro encontrado em um sítio arqueológico, em alguma biblioteca perdida. É uma obra mental que toma forma pelas mãos do autor no tempo presente.


Bônus: Não existia o jus primae noctis ou droit du seigneur – ele foi totalmente inventado. Seria o direito de um cavaleiro nobre de passar a primeira noite com as noivas de suas terras. (The Subordinated Sex: A History of Attitudes Toward Women, Vern L. Bullough, Brenda Shelton, Sarah Slavin, p. 142).

3 Comentários

  • Laís Helena 30 maio, 2016em20:47

    Reclamei disso em uma resenha que publiquei recentemente: a personagem foi estuprada, já no final do livro, e aparentemente esqueceu o assunto. Eu esperava que isso fosse ser abordado no segundo volume, mas se tocou de leve no assunto algumas vezes. Em resumo, o trauma não foi explorado (é quase como se ela nem tivesse passado por isso). Mesmo pensando em termos de narrativa, qual seria a necessidade da cena, se não serviu para mover o enredo nem para desenvolver a personagem? Se a intenção era criar um clima distópico e de desesperança, há muitos outros tipos de sofrimento para se impor a um personagem (como a falta de recursos, a falta de alguém em quem confiar) que seriam muito mais eficientes nisso. (E também há outras maneiras de desenvolver um personagem sem usar o abuso sexual, mesmo que o trauma seja bem trabalhado depois; não é o único tipo de desgraça que pode acontecer na vida de uma pessoa).
    Em relação a essa necessidade de se aproximar da “realidade”, parece mais uma necessidade de provar para as pessoas que não gostam de fantasia (ou, na verdade, para aquelas que acham que a fantasia é perda de tempo) que a fantasia pode sim se aproximar daquilo que eles julgam tão importante na literatura. Claro que eu não tenho nada contra discutir temas relevantes “e que acrescentam alguma coisa” nas entrelinhas se isso deixar a história mais interessante, mas parece que a ideia de ler uma história pelo puro prazer de apreciá-la é muito mal vista. Afinal, em vez de perder tempo lendo esse “livro que não acrescenta nada”, poderíamos estar lavando a louça, discutindo na internet, lendo livros melhores (normalmente, os livros de que a pessoa gosta). Notei isso quando passei a usar a internet com mais frequência e entrar em grupos sobre literatura: esse julgamento da leitura alheia, que muitas vezes leva algumas pessoas a terem vergonha do que leem, a ler o que não gostam só para ser visto como mais inteligente por essas pessoas e a necessidade de ficar tentando provar a todo momento que a fantasia é sim “real”.
    Mas, como já desviei muito do assunto principal, vou encerrar por aqui. Parabéns pelo artigo, que foi muito bem argumentado e bem embasado.

    • Leonardo Griebler 31 maio, 2016em16:23

      é na verdade não foi muito os livros que ele movimentou não são tão focados na sociedade e costumes como got, senhor dos aneis os romances que tem é o classico triangulo amoroso entre humano,humana e elfa. e a a cultura medieval de got é bem proxima da nossa ja a cultura medieval de Dragon age se ve mulheres com bem mais liberdade. ou se pode fazer de maneira a distorcer a cultura como em lost kingdom onde se vê mulheres ja sob julgo da igreja católica com bem mais poder e influencia do que deveriam ou tipo no filme pompeia mas dai o cara pode levar criticas pela veracidade histórica “He also received minor criticism from Yeomans for his portrayal of women, who would not have been seen alone in town, involved in political affairs, or wearing the revealing clothes they wore in the film. Anderson portrayed these women in such a way in order to conform to modern social norms

  • Livia 8 junho, 2016em8:27

    Gostei muito do artigo e concordo com tudo o que voce disse: “parece que a fantasia medievel virou um refugio para a misoginia.” E bom saber que nem todo o escritor concorda com esse tipo de abordagem violenta e misogina. Infelizmente nao e so na fantasia medieval que isso acontece. Leio muitos livros de ficcao historica que se passam na Roma antiga e cenas de estupro sao lugar-comum nesse tipo de genero. Cheguei a conclusao de que inserir cenas de estupro sem necessidade e uma falta de criatividade enorme da parte do autor. Se o autor usar a imaginacao e parar para pensar um pouco mais, ele vai conseguir arrumar uma saida mais inteligente para dar continuidade ao enredo sem precisar apelar para a violencia contra a mulher. Ja existe muita violencia contra a mulher na vida real, os escritores nao precisam transformar isso em cliche de ficcao. Misoginia tem que ser combatida em vez de virar lugar-comum da literatura especulativa.

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