De onde vêm as histórias? – Como e quando surge a inspiração

Em ótimo artigo que pode ler aqui, Nano Fregonese explorou o conceito de repertório, que nada mais é do que o conjunto de experiências que cada um tem na vida e que pode ser aproveitado para contar qualquer história.

O escritor e roteirista Fábio M. Barreto, em seu curso de técnicas para escritores, propõe logo em uma das primeiras aulas um pequeno exercício: olhe ao redor, pegue qualquer objeto, feche os olhos e imagine uma história a partir dele. Não importa o objeto, pode ser uma caneta, um mouse, um anel…

Com base no curso e nesse exercício, resolvi pesquisar a origem de histórias de que gosto muito. Veja, não se trata do conceito do repertório, tampouco das inspirações ou dos paralelos da história em si, mas de como o escritor ou o roteirista teve a ideia.

A história e o roteiro originais do filme Highlander são de Gregory Widen, cujos conceitos e linhas gerais foram seguidos pelos produtores. Na época, ele era estudante de cinema na UCLA e em viagem para a Escócia nas férias de verão, ao se deparar com uma armadura completa, pensou “como seria se esse cara estivesse vivo hoje?”. Daí surgiram os imortais em conflito vivendo vidas secretas das quais não tínhamos conhecimento

Douglas Adams afirmava, inclusive no prefácio do próprio livro, que a noção d’O Guia do Mochileiro das Galáxias apareceu numa época da sua vida em que não tinha dinheiro. Ele estava deitado bêbado em um campo perto de Innsbruck com uma cópia do Guia do Mochileiro da Europa, olhando para o céu, quando lhe ocorreu: “que grande ideia seria alguém escrever um guia desses para a galáxia”.

Sobre Belas Maldições, Neil Gaiman disse que a ideia para o livro partiu diretamente dele e de Terry Pratchett, sem intervenção do editor, e que inicialmente seria uma paródia de uma série de livros infantis muito popular no Reino Unido chamada William, da autora Richmal Crompton, que contava as aventuras de um garoto de onze anos de idade. O livro se chamaria William the Antichrist (William, o Anticristo). Tal concepção evoluiu e se tornou algo maior.

George Martin, por sua vez, sempre gostou de miniaturas de cavaleiros e de história medieval. Em 1991, enquanto tinha dificuldades em desenvolver um romance de ficção científica chamado Avalon, concebeu uma cena em que vários jovens encontravam um direwolf morto com os chifres de um veado no pescoço. O direwolf dara à luz vários filhotes, que foram levados pelos jovens e criados por eles. Essa cena foi desenvolvida por Martin e se transformou na história de fantasia épica As Crônicas de Gelo e Fogo. Antes reticente, as obras de Tad Williams convenceram-no a escrever no gênero, pois percebeu que a história poderia ser desenvolvida de um jeito mais adulto e maduro.

Eu já tirei inspiração de pizza, de um desenho animado do Sonic, de conselhos de minha avó e de flanelinhas.

Por exemplo, o apartamento da Hel, em Brasil Cyberpunk 2115, é praticamente uma fotografia da pequena casa em que minha (agora futura ex?) esposa morava, enquanto a velha enxerida do ônibus é baseada na velha padrão enxerida se qualquer ônibus.

E você?

Fontes:

  1. The Digital Bits — A Conversation with Bill Panzer
  2. Good Omens — An Afterword to the Book
  3. The Ultimate Hitchhiker’s Guide to the Galaxy — Introduction: A Guide to the Guide
  4. A Wiki of Ice and Fire — A Song of Ice and Fire

Douglas Adams e a importância do esforço para escrever (às vezes)

… além da relação com Gaiman e Pratchett e o meu renascimento como escritor

Douglas Adams — BBC America
Douglas Adams — BBC America

Douglas Adams influenciou muito a minha escrita, bem como a comédia, ao lado de Terry Pratchett e Neil Gaiman. Para mim, foi um dos melhores escritores de todos os tempos, além de um visionário (afinal, o Guia é simplesmente um iPad com acesso a uma wikipedia universal). Porém, Adams tinha uma grande dificuldade para escrever. Segundo Terry Jones, ele adorava ideias, mas odiava escrever:

“Ele era um escritor muito brilhante. Talvez fosse por isso que odiasse tanto [escrever]: ele se esforçava demais”.

Neil Gaiman, outro amigo íntimo, concorda:

“Depois que ele morreu [em 2001], eu fui muito entrevistado, perguntaram-me sobre Douglas. Eu disse que não achava que ele tenha sido um romancista, não de verdade, apesar de ter sido um romancista best seller internacional que tinha escrito vários livros que, um quarto de século mais tarde, estão se tornando clássicos. Escrever romances foi uma profissão na qual entrou de ré, ou tropeçou, ou se sentou repentinamente e quebrou”.

Admito que tentei encontrar dicas de escrita de Adams, mas não tive êxito. Encontrei apenas várias referências ao seu “ódio” pela escrita e ao amor pelas ideias, à vez em que foi trancado por três semanas junto com um editor em um quarto de hotel para que finalizasse um livro da série do Mochileiro e a quando recebera um adiantamento para outro livro, Starship Titanic, que, sete anos mais tarde, não tinha sequer começado e que acabou transformando, com a ajuda de amigos, em um jogo de computador apenas para cumprir o contrato.

[…] ele via as coisas de maneira diferente e ele era capaz de comunicar o jeito como as via, e uma vez que ele as explicasse como as via, era praticamente impossível vê-las do jeito com que você costumava fazê-lo.

Gaiman, em 2015, no memorial anual ao amigo falecido, disse que o encontro que teve com ele, aos 22 anos de idade, mudou a sua vida:

“Eu não conheci muitos gênios na minha vida. Algumas pessoas brilhantemente espertas, mas apenas uma pequeníssima porção que eu classificaria como gênios. Assim eu classificaria Douglas, porque ele via as coisas de maneira diferente e ele era capaz de comunicar o jeito como as via, e uma vez que ele as explicasse como as via, era praticamente impossível vê-las do jeito com que você costumava fazê-lo.

[…]

Eu passei muito tempo com Douglas e escrevi [a obra Don’t Panic] em um estilo de humor inglês clássico, engraçado e limpo. Quando terminei, eu disse ‘isso é muito divertido de escrever, eu devia fazer mais isso’. Então eu escrevi 5000 palavras e mandei para amigos lerem. Um deles era Terry Pratchett, que me telefonou de volta, oito meses depois, e disse ‘sabe aquilo lá, você está fazendo alguma coisa com aquilo?’ […] Foi muito como se Michelangelo lhe telefonasse e dissesse ‘você quer fazer um teto?’”.

A colaboração resultou no livro Belas Maldições (Good Omens), um dos melhores livros já escritos e, ao lado da sério do Mochileiro das Galáxias, uma das obras mais engraçadas do Universo.

A mensagem que fica, então, não está em qualquer texto a respeito de escrita que ele jamais produziu. A dica de Douglas Adams que fica é: viva, cultive suas ideias, faça amigos, inspire e inspire-se e esforce-se (nem sempre). Às vezes, a vida não acontece do jeito como espera, mas acontece do jeito certo.

PS: a palestra de Neil Gaiman pode ser vista no Youtube.