A fantasia medieval como refúgio da misoginia
Sobre escrever / 30 maio, 2016

A fantasia medieval é pródiga em textos com alto teor de misoginia, machismo, homofobia e outras formas de agressão a grupos vulneráveis ou a minorias. Ironicamente, a desculpa preferida de autores de textos desse teor é a de que “a Idade Média era assim” ou então de que busca a “realidade”. Ora, “fantasia medieval” é, por definição, ficção, ou seja, uma história que não corresponde e nem tem pretensão de corresponder à realidade. “Fantasia” é um termo em vias de abandono em prol da expressão “ficção especulativa”, um gênero que comporta toda sorte de elementos fantásticos (i.e., irreais) para contar uma história. O adjetivo “medieval” limita o gênero a narrativas inspiradas na nossa Idade Média. Note-se que “inspirada” inclui histórias que se passam numa versão romantizada de uma época da História e até mesmo mundos totalmente saídos da cabeça do autor. Por exemplo, a Terra-Média de Tolkien baseia-se na Midgard da cultura nórdica e faz uma salada de elementos da cosmogonia viking, armamentos de alguns povos e períodos medievais e uma visão própria de elfos e anões. É notória a falta de mulheres em O Senhor dos Anéis e O Hobbit. Em parte, é culpa do tempo em que foram…

Mini-resenha: X-Men – Apocalipse
Sem categoria / 24 maio, 2016

A franquia X-Men é bastante irregular. De cara, boto a culpa na Fox, que tem um histórico de interferência nas produções cinematográficas. Mas, no caso de X-Men – Apocalipse, não sei o que pensar. Bryan Singer dirigiu os dois primeiros e os dois últimos filmes. O filme inaugural é muito bom, tem um tom mais sóbrio e apresenta personagens e situações com as quais nos identificamos e nos importamos. X-Men 2 foi interessante, na época, porque trouxe para o cinema um vislumbre da história do Wolverine. Dias de um futuro esquecido é, no geral, divertido, as lutas são ótimas e o encontro de gerações não pareceu forçado (dava para sentir a empolgação de Ian McKellen e de Patrick Stewart). Com bons atores e um diretor competente e fã dos personagens, o que poderia dar errado? Infelizmente, tudo. Apocalipse é um vilão complicado, pois é excessivamente poderoso: infere-se que é um personagem extra-terrestre que vive potencialmente para sempre e que tem o poder de manipular qualquer matéria e de entrar na cabeça das pessoas. Ao contrário de Jean Grey, não tem nenhuma restrição. Resultado: ele renasce no presente e passa o filme inteiro sentado numa pedra mandando outros fazerem coisas que…

Resenha: The name of the wind (O Nome do Vento), de Patrick Ruthfuss
Sem categoria / 23 maio, 2016

The Name of the Wind/O Nome do Vento é um trabalho bastante elogiado do Patrick Ruthfuss e acabei lendo por várias recomendações de amigos. Tinha altas expectativas e quis amar o livro, de verdade. Porém, não cumpriu o que prometia. O Prólogo é realmente muito bem escrito, diria que é, de longe, a melhor parte do livro. Dá a impressão que o autor gastou ali uma boa parte do tempo para apresentar uma obra-prima. O silêncio em três níveis é de um lirismo impressionante. A ideia de uma história narrada por um aventureiro aposentado que se torna dono de um taverna é também interessante, inclusive por mostrar o “fim” de um herói que não seja o casamento com a princesa, a conquista de um trono qualquer ou a morte gloriosa. O protagonista incomoda: ele é arrogante, o melhor do mundo, o mais inteligente. Basicamente, ele é O Escolhido, The One, expediente que já me cansou. Inicialmente achei que ele só era mentiroso, um narrador não confiável, mas o livro deixa claro, no final, que não é o caso. Ele é “top” mesmo. Apesar de toda a astúcia, resolve se exilar do mundo adotando um nome cuja pronúncia é a mesma…

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