Resenha: The Pursuit of Perfection (Storybundle #1)

O escritor e jornalista Fábio M. Barreto recomendou aos alunos do seu curso C.O.N.T.E. e aos escritores de ficção em geral que lessem os livros do 2015 NaNoWriMo Writing Tools Bundle, que estavam disponível no site StoryBundle. Era um pacote de ebooks que visava a fornecer ao escritor independente informações elementares sobre a construção de história e o gerenciamento de carreira. Compunham o pacote: Writing the Blockbuster Novel; 52 Ways to Get Unstuck; Discoverability; Writing to the Point; Brewing Fine Fiction; Write Characters Your Readers Won’t Forget; The Synopsis Treasure; How to Write Fiction Sales Copy; Million Dollar Book Signings; Writing Horses; Worldbuilding; Writing Fight Scenes; Jump Start Your Novel; Drawing on the Power of Resonance in Writing; Million Dollar Productivity; Killing the Top 10 Sacred Cows of Publishing; The Pursuit of Perfection; Million Dollar Professionalism; Shadows Beneath; Million Dollar Outlines; 21 Days to a Novel; Charisma +1; The Freelancer’s Survival Guide; 500 Ways to Write Harder; e, ufa, The Non-User Friendly Guide for Aspiring TV Writers.

Já li alguns desses livros e minha meta é, ao longo de 2016, ler todos e resenhar os mais importantes ou interessantes. Não todos, há ebooks meio inúteis, como o Charisma +1, que dá dicas de como participar de certas convenções nos EUA, com conselhos como “tomar banho ao menos uma vez por dia”. Bom, talvez seja útil para quem não tome banho uma vez por dia (recomendo), mas são dicas voltadas para assuntos muito específicos e fora da nossa realidade.

Neste artigo, apresento o livro The Pursuit of Perfection and How it Harms Writers, de Kristine Kathryn Rusch. A autora no site www.kristinekathrynrusch.com posta regularmente sobre o mercado literário, com foco sobre o escritor independente. O livro compila três posts, “Perfection”, “Careers, Critics and Professors” e “Writers and Business”.

Kathryn, como muitos escritores, dá workshops sobre escrita e também sobre gerenciamento de carreira. Bem interessante, pois não costumamos pensar no gerenciamento de carreira propriamente, embora haja muitos cursos e livros sobre o processo de escrita em si.

O livro passa basicamente três lições: não existe o texto perfeito; é possível melhorar a escrita; e escrever é uma carreira.

NÃO EXISTE O TEXTO PERFEITO – Kathryn conta que passa uma boa parte do tempo de seus workshops reparando danos causados aos escritores por experiências passadas nas quais seus textos sofreram pesadas críticas. Tais críticas viriam da presunção errada e destrutiva de que existe o texto perfeito.

Ela, por exemplo, já sofreu críticas de 20 minutos em peer workshops (workshops em que todos podem criticar um texto, inclusive do professor) a respeito de textos com menos de 3000 palavras; críticas feitas por escritores iniciantes, aspirantes ou que nunca escreveram.

Parte-se do falso pressuposto da opção entre um texto porcaria e um texto perfeito, inclusive porque a qualidade da história depende também do leitor. Isso explica porque não há unanimidade entre livros e contos: se existisse um texto objetivamente perfeito, todas as listas de vendas seriam iguais.

Sempre há alguma coisa errada no texto. Temos de conviver com isso. Na obra de Shakespeare, existem coisas que seriam criticadas em workshops. Sonho de Uma Noite de Verão, por exemplo, tem vários finais.

Outro problema que nos aflige ao estudar a escrita: tornamo-nos muito críticos. Entramos no “modo crítico”. Nesse modo, focamos em cada pequeno detalhe que, a nosso ver, está errado na história, na ordem dos acontecimentos, na redação. Acabamos nos esquecendo de como é ler apenas por prazer, ler como “leitor”.

Desse modo, ela propõe que o leitor/editor escolha uma de três respostas possíveis a respeito de um manuscrito que caia em suas mãos: (1) eu gostei do que li; (2) eu desisti na página tal; ou (3) eu gostei do que li e eu teria comprado.

Enfim, se o livro tem três finais e funciona, e daí?

Outra lição importantíssima: depois que terminar e revisar bastante o seu livro, uma vez publicado, desencane. Já era. Não olhe para trás. Não se martirize. Aprenda com as críticas, se forem úteis, e supere-as.

É POSSÍVEL MELHORAR A ESCRITA – Aqui há um eterno e polêmico debate: o escritor nasce com o talento ou a escrita pode ser desenvolvida?

Kathryn conta que quase não existiam cursos de escrita criativa nas universidades dos EUA e que os então existentes ressaltavam que o seu objetivo principal era “encorajar” escritores, apesar da “impossibilidade” de ensinar a escrever.

Contra isso, ela tem um bom argumento: se escrever fosse apenas um talento nato, os escritores não poderiam melhorar e qualquer esforço nesse sentido seria inútil. Há outros fatores que contribuem para o nascimento e a formação de um escritor, como a educação e o ambiente familiar, mas a capacidade de escrever não é inata. É, sim, uma habilidade que, como a música, pode ser desenvolvida.

ESCREVER É UMA CARREIRA – Um escritor profissional é aquele que escreve várias obras, que forma um corpo de obras, e não apenas um ou dois livros.

De acordo com Kathryn, a maioria dos escritores de sucesso tem muitos livros publicados, inclusive sob pseudônimos, até mesmo porque não dá para saber o que fará sucesso ou não. Esse argumento está bastante ligado à primeira lição, a suposta frase perfeita não será o diferencial, mas, sim, o quanto o texto terá ressonância com o público leitor.

Além disso, o escritor deve aprender a tratar a carreira de modo profissional, ou seja, deve estar a par do mercado, de como funcionam os agentes, as editoras e os contratos. Não deve simplesmente delega-la a terceiros ou assinar qualquer contrato esperando que dê tudo certo. Deve se educar e se informar.

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VEREDICTO – O livro é bem interessante e traz uma visão de uma escritora que nasceu em uma família que valoriza a escrita e está no mercado há muitos anos. Na parte sobre se educar, ela valoriza um pouco demais um curso que dá junto com o marido nos EUA para escritores já iniciados, o que, porém, não compromete a lição. Ademais, são muito bem-vindas as observações sobre workshops e sobre a nossa tendência de ativar o modo crítico total em relação ao próprio trabalho e ao de outros.

Vale a pena comprar? A não ser que queiram tê-los facilmente compilados para sempre na sua biblioteca, os três textos podem ser lidos de graça no site da autora.