Resenha: A jornada do escritor, de Christopher Vogler

Christopher Vogler, formado em cinema pela University of South California, fez carreira como consultor de histórias para grandes estúdios, começando pela 20th Century Fox até integrar a equipe de histórias animadas da Disney, quando colaborou com o desenvolvimento de O rei leão, Aladdin, Hércules e Mulan. Lá elaborou um memorando de sete páginas intitulado “Guia Prático para O Herói de Mil Faces”, que descrevia a ideia da Jornada do Herói, de Joseph Campbell, com o intuito de utilizá-lo e distribuí-lo como um guia básico para a elaboração de roteiros. Esse guia foi expandido até finalmente virar A jornada do Escritor, já na 3ª edição, publicado por aqui em 2015 pela Editora Aleph.

A Jornada do Escritor
A Jornada do Escritor

O livro está dividido em três partes: o “Mapeamento da jornada”; os “Estágios da jornada”, que analisa mais detidamente cada passo do modelo, comparando-o com roteiros de filmes famosos; e os “Apêndices”, que coleta observações adicionais a respeito de uma boa história.

A Jornada do Herói é um modelo narrativo identificado por Joseph Campbell, segundo o qual haveria um padrão nas histórias dos vários povos que poderia ser resumido a determinadas etapas. Vogler vale-se dos conceitos de Campbell, atualiza parte da nomenclatura (há até uma tabela comparativa) e detalha cada etapa com exemplos de animações, filmes e situações. A linguagem é bastante acessível e o texto flui bem no geral.

O grande mérito do autor é explicar em termos acessíveis a teoria de Campbell com o objetivo de aplicá-la na criação das melhores histórias possíveis. Ao mostrar os diferentes arquétipos, as máscaras que cada personagem pode vestir, Vogler se preocupa não só em se fazer entender, mas também em demonstrar como aplicá-los. Para ele, a Jornada do Herói é uma ferramenta à disposição do escritor.

Claro, como ressalta o tempo todo, a Jornada do Herói não é uma forma de bolo, uma maneira rígida de estruturar a história, mas sim uma tese construída a partir de observações feitas por um estudioso que faz bastante sentido.

“A percepção consciente dos padrões [da Jornada do Herói] pode ser uma faca de dois gumes, pois é fácil criar clichês e estereótipos impensados a partir dessa matriz. O uso inseguro e desastrado desse modelo pode ser enfadonho e previsível. No entanto, se os escritores absorverem suas ideias e as recriarem a partir de novos insights e combinações surpreendentes, eles serão capazes de inventar formas incríveis e esquemas originais tomando como base elementos antiquíssimos e imutáveis”. – Christopher Vogler

Ademais, a época e a cultura nas quais uma história se insere também influenciam o seu potencial sucesso. Antigamente, o público aceitava um ritmo mais cadenciado e uma dualidade entre o bem e o mal mais acentuada; hoje, há uma maior preferência por personagens mais realistas, ou seja, mais próximos a uma pessoa de verdade, com falhas e idiossincrasias. Deve-se lembrar ainda que existem culturas que não lidam muito bem com a tendência hollywoodiana de produzir histórias em que “o bem vence o mal” ou em que um herói resolve tudo.

Aliás, o capítulo “Recapitulação da Jornada” é uma atração à parte, onde Vogler faz um verdadeiro estudo de caso dos filmes Titanic, Pulp Fiction, O rei leão, Ou tudo ou nada e da trilogia clássica de Guerra nas Estrelas. O capítulo mostra que desvios em relação ao modelo da Jornada não necessariamente geram estranhamento ou fracasso, embora o tópico a respeito de O rei leão tenha repercutido um pouco na minha avaliação pessoal do desenho animado. Por exemplo, se Simba teve de fugir pela própria vida, por que o segundo ato começa com lições sobre como viver sem preocupações? Como Timão e Pumba podem ajudá-lo a se tornar um líder?

Nos apêndices, Vogler mostra como as polaridades (corajoso X covarde etc) podem ajudar a trazer maior envolvimento com a história, na medida em que geram tensão entre os personagens e abrem espaço para o seu desenvolvimento psicológico e interpessoal.

Por fim, o autor apresenta mais um método para avaliar a qualidade de uma história: se e quantos órgãos ela afeta. Em outras palavras: a história faz o coração acelerar? Arrepia os pelos? Emociona? Ou apenas gera uma interação intelectual? Para ele, mais bem-sucedida será uma trama quanto mais órgãos conseguir provocar.

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VEREDICTO – Vale a pena ler? Sim, com certeza!

É possível que um leitor não escritor ache certas passagens da parte dois um pouco arrastadas, já que Vogler acaba se estendendo um pouco demais em certos tópicos, prejudicando o ritmo em prol de uma explicação mais detalhada.

Para um escritor, é um manual extremamente bem detalhado, rico em exemplos, que deve ficar à mão para consultas, principalmente quando estiver com problemas na movimentação da história.

Em suma, a Jornada do Escritor forma, ao lado de O Herói de Mil Faces (Joseph Campbell) e de Sobre a Escrita (Stephen King), o curso básico de qualquer autor.


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Resenha: The Pursuit of Perfection (Storybundle #1)

O escritor e jornalista Fábio M. Barreto recomendou aos alunos do seu curso C.O.N.T.E. e aos escritores de ficção em geral que lessem os livros do 2015 NaNoWriMo Writing Tools Bundle, que estavam disponível no site StoryBundle. Era um pacote de ebooks que visava a fornecer ao escritor independente informações elementares sobre a construção de história e o gerenciamento de carreira. Compunham o pacote: Writing the Blockbuster Novel; 52 Ways to Get Unstuck; Discoverability; Writing to the Point; Brewing Fine Fiction; Write Characters Your Readers Won’t Forget; The Synopsis Treasure; How to Write Fiction Sales Copy; Million Dollar Book Signings; Writing Horses; Worldbuilding; Writing Fight Scenes; Jump Start Your Novel; Drawing on the Power of Resonance in Writing; Million Dollar Productivity; Killing the Top 10 Sacred Cows of Publishing; The Pursuit of Perfection; Million Dollar Professionalism; Shadows Beneath; Million Dollar Outlines; 21 Days to a Novel; Charisma +1; The Freelancer’s Survival Guide; 500 Ways to Write Harder; e, ufa, The Non-User Friendly Guide for Aspiring TV Writers.

Já li alguns desses livros e minha meta é, ao longo de 2016, ler todos e resenhar os mais importantes ou interessantes. Não todos, há ebooks meio inúteis, como o Charisma +1, que dá dicas de como participar de certas convenções nos EUA, com conselhos como “tomar banho ao menos uma vez por dia”. Bom, talvez seja útil para quem não tome banho uma vez por dia (recomendo), mas são dicas voltadas para assuntos muito específicos e fora da nossa realidade.

Neste artigo, apresento o livro The Pursuit of Perfection and How it Harms Writers, de Kristine Kathryn Rusch. A autora no site www.kristinekathrynrusch.com posta regularmente sobre o mercado literário, com foco sobre o escritor independente. O livro compila três posts, “Perfection”, “Careers, Critics and Professors” e “Writers and Business”.

Kathryn, como muitos escritores, dá workshops sobre escrita e também sobre gerenciamento de carreira. Bem interessante, pois não costumamos pensar no gerenciamento de carreira propriamente, embora haja muitos cursos e livros sobre o processo de escrita em si.

O livro passa basicamente três lições: não existe o texto perfeito; é possível melhorar a escrita; e escrever é uma carreira.

NÃO EXISTE O TEXTO PERFEITO – Kathryn conta que passa uma boa parte do tempo de seus workshops reparando danos causados aos escritores por experiências passadas nas quais seus textos sofreram pesadas críticas. Tais críticas viriam da presunção errada e destrutiva de que existe o texto perfeito.

Ela, por exemplo, já sofreu críticas de 20 minutos em peer workshops (workshops em que todos podem criticar um texto, inclusive do professor) a respeito de textos com menos de 3000 palavras; críticas feitas por escritores iniciantes, aspirantes ou que nunca escreveram.

Parte-se do falso pressuposto da opção entre um texto porcaria e um texto perfeito, inclusive porque a qualidade da história depende também do leitor. Isso explica porque não há unanimidade entre livros e contos: se existisse um texto objetivamente perfeito, todas as listas de vendas seriam iguais.

Sempre há alguma coisa errada no texto. Temos de conviver com isso. Na obra de Shakespeare, existem coisas que seriam criticadas em workshops. Sonho de Uma Noite de Verão, por exemplo, tem vários finais.

Outro problema que nos aflige ao estudar a escrita: tornamo-nos muito críticos. Entramos no “modo crítico”. Nesse modo, focamos em cada pequeno detalhe que, a nosso ver, está errado na história, na ordem dos acontecimentos, na redação. Acabamos nos esquecendo de como é ler apenas por prazer, ler como “leitor”.

Desse modo, ela propõe que o leitor/editor escolha uma de três respostas possíveis a respeito de um manuscrito que caia em suas mãos: (1) eu gostei do que li; (2) eu desisti na página tal; ou (3) eu gostei do que li e eu teria comprado.

Enfim, se o livro tem três finais e funciona, e daí?

Outra lição importantíssima: depois que terminar e revisar bastante o seu livro, uma vez publicado, desencane. Já era. Não olhe para trás. Não se martirize. Aprenda com as críticas, se forem úteis, e supere-as.

É POSSÍVEL MELHORAR A ESCRITA – Aqui há um eterno e polêmico debate: o escritor nasce com o talento ou a escrita pode ser desenvolvida?

Kathryn conta que quase não existiam cursos de escrita criativa nas universidades dos EUA e que os então existentes ressaltavam que o seu objetivo principal era “encorajar” escritores, apesar da “impossibilidade” de ensinar a escrever.

Contra isso, ela tem um bom argumento: se escrever fosse apenas um talento nato, os escritores não poderiam melhorar e qualquer esforço nesse sentido seria inútil. Há outros fatores que contribuem para o nascimento e a formação de um escritor, como a educação e o ambiente familiar, mas a capacidade de escrever não é inata. É, sim, uma habilidade que, como a música, pode ser desenvolvida.

ESCREVER É UMA CARREIRA – Um escritor profissional é aquele que escreve várias obras, que forma um corpo de obras, e não apenas um ou dois livros.

De acordo com Kathryn, a maioria dos escritores de sucesso tem muitos livros publicados, inclusive sob pseudônimos, até mesmo porque não dá para saber o que fará sucesso ou não. Esse argumento está bastante ligado à primeira lição, a suposta frase perfeita não será o diferencial, mas, sim, o quanto o texto terá ressonância com o público leitor.

Além disso, o escritor deve aprender a tratar a carreira de modo profissional, ou seja, deve estar a par do mercado, de como funcionam os agentes, as editoras e os contratos. Não deve simplesmente delega-la a terceiros ou assinar qualquer contrato esperando que dê tudo certo. Deve se educar e se informar.

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VEREDICTO – O livro é bem interessante e traz uma visão de uma escritora que nasceu em uma família que valoriza a escrita e está no mercado há muitos anos. Na parte sobre se educar, ela valoriza um pouco demais um curso que dá junto com o marido nos EUA para escritores já iniciados, o que, porém, não compromete a lição. Ademais, são muito bem-vindas as observações sobre workshops e sobre a nossa tendência de ativar o modo crítico total em relação ao próprio trabalho e ao de outros.

Vale a pena comprar? A não ser que queiram tê-los facilmente compilados para sempre na sua biblioteca, os três textos podem ser lidos de graça no site da autora.

 

Como nascem os direitos autorais do escritor?

Um dos maiores medos que aflige os autores, em especial os independentes, é o de “roubarem” a sua obra. Nada mais natural: você gasta um pedaço da sua vida e da sua mente para colocar as suas ideias no papel e, de repente, há o risco de uma outra pessoa copiar e colar o texto se atribuindo autoria. A legislação de direitos autorais existe para proteger o verdadeiro autor e coibir comportamentos desse tipo.

O QUE SÃO OS DIREITOS AUTORAIS?

Os direitos autorais constituem um grupo de direitos conferidos ao autor de uma determinada obra. Variam conforme o tipo da obra criada. No Brasil, as obras escritas são protegidas pela Lei 9.610, de 19 de fevereiro de 1998 – Lei dos Direitos Autorais.

QUAL O OBJETO DA PROTEÇÃO?

São protegidas as “criações do espírito” expressas ou fixadas em qualquer suporte tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro. A obra tem que existir! Não adianta querer proteger uma ideia. As ideias são públicas e inapropriáveis. A própria Lei exclui as ideias do âmbito de proteção.

A proteção abrange o conteúdo e pode alcançar o título, se original e inconfundível com obra do mesmo gênero divulgada anteriormente por outro autor.

QUEM É O AUTOR?

Como regra, autor é a pessoa física criadora de obra literária ou artística. Ele pode adotar o nome civil, pseudônimo ou qualquer outro sinal para identificação. É autor da obra aquele que se identifica como tal, salvo prova em contrário. A proteção alcança as participações individuais em obras coletivas, como coletâneas.

É PRECISO REGISTRAR A OBRA?

Não! A Lei de Direitos Autorais expressamente dispõe que a proteção aos direitos independe de registro. No Brasil, a proteção dos direitos autorais nasce com a criação da obra e a respectiva indicação de autoria. A proteção independe de publicação ou de registro.

É RECOMENDÁVEL REGISTRAR A OBRA?

O registro não é requisito para a proteção, mas há situações que o recomendam.

Isso porque existe uma diferença entre o mundo do dever-ser (legislação/direito) e do ser (realidade dos fatos). Os direitos autorais surgem com a fixação da obra em qualquer suporte por alguém que se identifique ou seja identificável como autor. Até por questão de segurança jurídica, a Lei de Direitos Autorais estabelece uma presunção de autoria para aquele que primeiro se identifica como criador da obra, presunção que pode ser derrubada por provas em sentido contrário.

Por exemplo, Fulano de Tal publicou o conto Crônicas de Beto no Wattpad em 01/01/2016; em 15/01/2016, Ciclano Jones publicou o mesmo conto na Amazon. A Lei presume que Fulano de Tal é o autor. Porém, se Ciclano Jones demonstrar que enviara um e-mail para Fulano de Tal avaliar a obra em 01/12/2015, será considerado o autor das Crônicas de Beto.

O registro na Biblioteca Nacional serve como um facilitador de meio de prova: se Ciclano Jones tivesse registrado a obra na Biblioteca Nacional antes, bastaria mostrar o certificado de registro ou averbação. A Biblioteca Nacional funcionaria como uma espécie de cartório, pois o registro gera uma presunção relativa de autoria contra terceiros. Contudo, o registro não cria direitos.

O registro é recomendado se a obra não publicada for enviada pelo autor para terceiros. Caso comum é o de submissão de originais para apreciação de editoras.

Por outro lado, se você escreveu um conto ou um livro e publicou na Amazon ou no Wattpad, por exemplo, não precisa registrar. O próprio sistema mostra a data de publicação e tem condições de fornecer registros a respeito em eventual ação judicial. Porém, nada impede que o registro seja feito posteriormente à publicação. Se quiser registrar, siga em frente, é até melhor!

Concluindo, toda a legislação é orientada pelo princípio da boa-fé, de modo a não premiar aquele que quer burlar o sistema. Mesmo se o plagiador registrar a obra antes na Biblioteca Nacional, não se tornará autor, pois autor é aquele que simplesmente escreveu a obra primeiro. Contudo, se houver controvérsia a respeito da autoria, tudo dependerá de prova. Nesse sentido, o registro constitui um meio mais fácil de indicação de autoria, mas não vale mais que outros meios de prova.

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Rodrigo Assis Mesquita é escritor e autor dos contos Destroços do Passado e Quatro Heróis e um Bardo contra a Realidade Medieval e da minissérie em publicação Brasil Cyberpunk 2115. Membro e colunista do Clube de Autores de Fantasia – CAF, é também Bacharel e Mestre em Direito do Estado pela USP.