Notas de um autor de fantasia de sucesso: mantenha a história real*

19 novembro, 2015

*Tradução, adaptação e comentários de Notes from a successful fantasy author: keep it real, de 2007, escrito por Terry Pratchett

terrypratchett

Terry Pratchett escreveu mais de setenta livros e fez bastante sucesso com a série de livros Discworld. Quando morreu aos sessenta e seis anos, em 2015, deixou o mundo órfão de um brilhante autor de fantasia. Para mim, ao lado de Douglas Adams, foi um dos maiores representantes do humor satírico inglês.

Em 2014, publicou a coleção de ensaios A Slip of The Keyboard: Collected Non-Fiction, que trouxe, dentre outros, um artigo sobre o processo de escrita: Notes from a successful fantasy author: keep it real.

Nele, Pratchett trata sobre a construção de mundo (“worldbuilding”). Ele discorre sobre a importância de estabelecer regras e de segui-las, por mais maluca que seja a ambientação, até mesmo para evitar furos de roteiro.

Lembra, também, que um mundo de fantasia não precisa ser totalmente diferente daquele em que vivemos. Às vezes bastam pequenas modificações na realidade ou um novo olhar a respeito de coisas cotidianas para criar um mundo interessante, com personagens vívidos, complexos, interessantes.

Ele ainda dá dicas de redação, como a de evitar ao máximo o uso de adjetivos, especialmente os esdrúxulos.

Contudo, a principal lição que Pratchett deixou é: leve o mundo criado a sério.

Já que muitas ficções são, de algum modo, fantasia, podemos reduzi-la a “ficção que transcende as regras do mundo conhecido”? Talvez ajude acrescentar “e que inclua elementos comumente classificados como mágicos”. Diz-se que há cerca de 5 subgêneros, de contemporânea a mítica, mas eles se misturam e se fundem e, se o resultado for bom, quem se importa?

Se quer escrever fantasia, você provavelmente leu um monte de fantasia — se for o caso, pare (veja abaixo). Se não leu nenhuma, vá ler um monte. Gêneros são duros com aqueles que não conhecem a história, não sabem as regras. Uma vez que as conheça, você saberá onde podem ser quebradas.

Gêneros também são — fantasia talvez seja a maior — uma grande despensa repleta de enredos, conceitos, raças, tipos de personagens, mitos, truques e direções, muitos deles consagrados pela história. Você pode pegar emprestado, como muitos o fizeram antes; se esse não fosse o caso, só existiria um livro sobre uma máquina do tempo. Para ficar com a metáfora de cozinha, eles são todos apenas ingredientes. O que importa é como você assa o bolo; todo autor decente deveria ter a sua própria receita e os melhores encontram novas coisas para adicionar à mistura.

Construção de mundo é uma parte integral de um monte de fantasias e se aplica mesmo a um mundo que superficialmente é o nosso — a despeito do fato de a esquadra de Nelson em Trafalgar ter consistido de aeronaves movidas a hidrogênio.

[…]

Leia bastante fora do gênero. Leia sobre o Velho Oeste (ele mesmo uma fantasia) ou a Londres de George ou sobre como a esquadra de Nelson foi abastecido com suprimentos ou sobre a história da alquimia ou da fabricação de relógios ou do correio a cavalo. Leia com a mentalidade de um carpinteiro olhando para as árvores.

Aplique lógica em lugares onde não deveria existir. Se é garantido que a Rainha das Fadas tem um colar feito de promessas quebradas, pergunte a si mesmo com o que se parece. Se existe mágica, de onde ela vem? Por que todo mundo não a usa? Quais as regras que você terá que lhe dar para permitir alguma tensão na sua história? Como a sociedade opera? De onde vem a comida? Você precisa saber como o seu mundo funciona.

Não consigo sublinhar este último ponto o bastante. A fantasia funciona melhor quando você a leva a sério (e também pode se tornar muito mais engraçada, mas essa é uma outra história). Levá-la a sério significa que devem existir regras. Se qualquer coisa pode acontecer, então não há um suspense de verdade. Você pode fazer porcos voarem, mas deve levar em conta as depredações na vida local dos pássaros e a necessidade de as pessoas em áreas muito cheias usarem guarda-chuvas bem parrudos o tempo todo. Brincadeiras à parte, esse tipo de pensamento é o motor que manteve a série Discworld em frente por vinte e dois anos [até então].

A fantasia funciona melhor quando você a leva a sério […]. Levá-la a sério significa que devem existir regras. Se qualquer coisa pode acontecer, então não há um suspense de verdade. — Terry Pratchett

De algum modo, somos treinados na infância a não fazer perguntas à fantasia, como “por que somente um pé em todo o reino cabe no sapatinho de cristal?”. Mas olhe para o mundo com um olhar questionador e a inspiração virá. Um vampiro é repelido por um crucifixo? Então certamente ele não poderá sequer abrir os olhos porque em todo lugar, em um mundo cheio de cadeiras, janelas, trilhos e cercas, verá algo sagrado. Se os lobisomens fossem como Hollywood os apresenta, como teriam certeza de que quando voltassem à forma humana teriam um par de calças para vestir? E em Elidor, Alan Garner, um mestre em gerenciar um mundo de fantasia ao lado do nosso e misturado a ele, memoravelmente perguntou as perguntas certas e nos lembrou que um unicórnio, não importa o que mais seja, é também um grande e perigoso cavalo. A partir de simples perguntas, inocentemente perguntadas, novos personagens surgem e novas reviravoltas são colocadas em uma velha história.

G.K. Chesterton resumiu a fantasia à arte de pegar aquilo que é monótono e cotidiano (e, portanto, não visto) e de nos mostrar sob um ângulo não familiar, de modo que o vejamos como algo novo. […]

Fique [também] longe de “ti” e “tu” e de “ira fléxil”, a não ser que você seja um gênio e use adjetivos como se lhe custassem uma unha do pé. Por alguma razão, adjetivos se aglomeram ao redor de algumas obras de fantasia. Seja impiedoso.

Finalmente, o fato de a história ser uma fantasia não o absolve de todas as responsabilidades básicas. Não significa que os personagens não precisam ser redondos; o diálogo, crível; o background, adequadamente estabelecido; as tramas, adequadamente afinadas. O gênero oferece todas as paletas de outros gêneros, além de outras cores. Elas devem ser usadas com cuidado. Só é preciso um pequeno ajuste para transformar o mundo em algo novo.

Nenhum Comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: