Dicas de escrita que aprendi com Chuck Palahniuk — Escrevendo com a “língua queimada”*

*Adaptado de Nuts and Bolts: Saying it Wrong, do Chuck Palahniuk, publicado em 24 de janeiro de 2014

Chuck Palahniuk publicou em 2014 um ensaio sobre como “escrever errado”, ou, pegando a expressão de outro autor, “falar com a língua queimada”, ou seja, dizer algo de um jeito confuso ou interessante.

Ele não se refere a falar errado nos diálogos dos personagens, mas à própria narrativa. As funções desse modo de escrever seriam três: criar uma sensação de intimidade e de honestidade na história; diminuir o ritmo do leitor, forçando-o a prestar bastante atenção; e criar interesse com uma linguagem poética ou incomum.

“Queimar” a linguagem cria uma sensação melhor de alguém se esforçando para contar uma história emocional, melhor do que “Minhas palavras foram agitadas e hesitantes…” ou “Ela disse em um sussurro suspirado…”

A primeira função tem a ver com imitar o jeito com que pessoas contam histórias pessoalmente, em voz alta. Um narrador nervoso não vai contar uma história por meio de uma linguagem perfeita; ele vai cometer erros. Um narrador ansioso ou com raiva provavelmente terá uma linguagem caótica e entrecortada.

Ele cita um trecho da história The Annex, da escritora Amy Hempel [traduzida e adaptada a seguir]:

“Enfim, tem uma pedra lá com o nome do nenê nela. E tinha um buquê não sei de quê que estava lá todo ressecado, que devia ter uma semana, amarrado com uma fitona branca quando eu cheguei. Tinha uma fita branca nele…”.

“Queimar” a linguagem cria uma melhor sensação de alguém se esforçando para contar uma história emocional, melhor do que “Minhas palavras foram agitadas e hesitantes…” ou “Ela disse em um sussurro suspirado…”.

Já a segunda função tem a ver com retardar o leitor por meio de palavras fora do comum, como jargões médicos ou palavras inventadas, que podem fazer com que seus leitores o amem (mas farão com que os revisores o odeiem). Servem para fazer o leitor prestar atenção na passagem por meio da palavra estranha.

Um exemplo que eu posso dar do emprego dessas duas funções simultaneamente é o conto A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero, do Bruno Ribeiro, que já começa assim:

Uma mosca tomba no meu prato com bife e batata frita. Agoniza. Bactérias. Díptero braquícero da família Muscidae. Poucos milímetros de comprimento. Pego o garfo e cutuco o inseto, escuto um chiado, feito televisão fora do ar. Coloração cinza no tórax, abdômen amarelado. Duas asas, uma delas levemente rasgada. Por isso agoniza.

A história toda se passa em uma lanchonete e é contada por um narrador perturbado, criando uma atmosfera que eu definiria como “white trash kafkaniano”. (Aliás, vale a pena ler).

Finalmente, pode-se escrever errado por escrever errado, por motivos puramente artísticos. Porém, Chuck recomenda, nesse caso, que seja conciso: “Você pode ser lindo e chique, mas seja curto e grosso”.

A dica final é prestar atenção na fala das pessoas, em como erram as palavras ou o seu uso, a fim de coletar tais erros para usá-los.